Confiram o post que saiu no Blog Ciência Brasil, do professor Marcelo Hermes (UnB), com o título “A briga da Fapesp com o presidente da Capes”. Embora seja um evento particular com tratamentos desproporcionais, há um quê de “mal entendido provocado propositalmente”. Por quê? Deixamos para @s interessad@s responderem. Veja a “Nota pública à comunidade científica” da FAPESP, onde está toda a história da “briga”.
FAPESP e IESs paulistas versus Capes
Junho 9, 2009 · Deixe um comentário
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Não homofobia!
Junho 3, 2009 · Deixe um comentário
Participe da campanha pela aprovação do Projeto de Lei – PLC 122 – que torna crime a homofobia no Brasil, divulgando o site Não Homofobia. Precisamos de voluntários/as para fazer uma grande onda viral na internet, principalmente no orkut.
1- Encaminhe para 10 amigos o site Não Homofobia e peça para que eles assinam o abaixo-assinado e divulguem para mais 10 amigos pedindo o mesmo;
2- No site existem 3 passos básicos super fáceis de realizar:
I- Preencha seu nome, email e RG ou CPF. O registro dessas informações será utilizado para comprovar e divulgar aos senadores o número de pessoas que são favoráveis a lei. Questão: Ahh mas eu não me sinto seguro em colocar meus dados de identidade… Resposta: O site possui um certificado de segurança, igual aos sites de bancos ou de compras na internet. O dados fornecidos são criptografados, evitando assim qualquer tipo de desvio das informações pessoais para outros fins que não sejam da campanha. Lembramos que um abaixo-assinado para ter valor real e jurídico precisa constar o registro de identidade da pessoa. Senão seria muito fácil, era só inventar um monte de nomes e e-mails e mandar;
II- Digite seu e-mail e depois do OK, acesse sua caixa de entrada de e-mail. Lá você encontrará uma mensagem enviada a partir do site. Basta clicar em “Responder para todos” (ou “Reply to All”) e os endereços dos 81 parlamentares que compõem o Senado Federal estarão no campo de destinatário, pronto para enviar o seu desejo pela aprovação da lei que criminaliza a homofobia no Brasil;
III- Multiplique as adesões. Indique para seus amigos/as!! Coloque o nome e e-mails deles/as e mande um convite para que eles/as também assinem o abaixo-assinado;
3- Crie comunidades no orkut e blogs para divulgar a campanha;
4- Poste comentários em Fóruns de comunidades que combatam a homofobia ou que sejam contra o preconceito divulgando o site Não Homofobia;
5- Seja criativo/a. Quaisquer idéias novas são super bem-vindas. Vamos colocar a mão na massa e trabalhar pela aprovação do PLC 122/06 e tornar crime a homofobia no Brasil.
Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT – Coordenação da Campanha Não Homofobia.
–
PARTICIPE – ACESSE – VOTE
Não Homofobia
Coordenador Geral – Cláudio Nascimento
Coordenador Técnico – Júlio Moreira – (21) 9318-0047
Assistente – Verônica Bairral (21) 8847.6926
GRUPO ARCO-ÍRIS
RUA MONTE ALEGRE, 167 – SANTA TERESA – RJ
TEL. (21) 2222.7286 / (21) 2215-0844
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AZT nasal: descoberta da UNESP-FCLAR
Maio 12, 2009 · Deixe um comentário
Pesquisadores da UNESP-FCLAR (Araraquara) descobriram uma forma menos agressiva da pessoa receber o medicamento AZT contra a AIDS. É o AZT de uso nasal.
A notícia completa está no G1.
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Viver sem tempos mortos
Maio 6, 2009 · 2 Comentários
No SESC-SP Consolação, haverá a peça Viver sem tempos mortos, sobre a história de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, entre 23/05 e 28/06 (da quinta-feira ao domingo). De Beauvoir foi uma filósofa feminista muito importante para a França e para o mundo, assim como Sartre. A concepção e a interpretação são de Fernanda Montenegro. Os ingressos se esgotam rapidamente. Já temos presença no dia 13/06 junto com as estudantes dos estudos de gênero da UNESP-FCLAR, mas uma estréia sempre é bem-vinda – quem sabe?
Uma matéria da Folha: Fernanda Montenegro encarna Beauvoir em monólogo, de Lucas Neves.
Informações: SESC-SP Consolação.
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Dia das mães: o amor materno e a domideologia
Maio 5, 2009 · Deixe um comentário
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II Conferência Internacional do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra
Maio 4, 2009 · Deixe um comentário

TEMA: Áfricas: saberes, desenvolvimento e nações republicanas no século XXI.
Após ler atentamente todas as ponderações e sobretudo rever os temas sugeridos pelos participantes da I Conferência Internacional do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (I CONCLADIN), realizada em 2007, a comissão organizadora da II CONCLADIN, que ocorrerá nos dias 19, 20 e 21 de maio de 2009 na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Araraquara, escolheu para este ano o tema: ÁFRICAS: saberes, desenvolvimento e nações republicanas no século XXI. A conferência abrigará também o I Colóquio Internacional do NUPE e a I Reunião Científica do LEAD da Faculdade de Ciências e Letras – Campus de Araraquara – UNESP. Além disso, contaremos com os mini-cursos e as conversas temáticas Chá, café e chocolate, presentes na programação.
Nessa II CONCLADIN queremos trazer estudiosos e intelectuais de nações africanas, mas também de outros países. Buscaremos nessa Conferência estabelecer contato com pesquisadores e agentes sociais que trabalham em diversas partes do mundo e que possam refletir sobre o sentido das Repúblicas, das lutas por mais cidadania e pelo desenvolvimento, sobretudo no momento em que o Brasil completa 120 anos de sua proclamação da República, mas ainda mantém, sob diversos aspectos, a mentalidade escravista e a estrutura de mando e obediência do período colonial-imperial brasileiro.
Nessa II CONCLADIN debateremos com estudiosos e intelectuais de diversas nações africanas, bem como também teremos a oportunidade de conversar com pensadores de países de fora da África, além de podermos contar com um leque enorme de estudiosos nacionais.
Informações: Portal Áfricas
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UNESP-FCLAR – Doutorado em Sociologia
Abril 29, 2009 · Deixe um comentário
A Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
A UNESP, criada em 1976, resultou da incorporação dos Institutos Isolados de Ensino Superior do Estado de São Paulo, então unidades universitárias situadas em diferentes pontos do interior paulista. Abrangendo diversas áreas do conhecimento, tais unidades haviam sido criadas, em sua maior parte, em fins dos anos 50 e inícios dos anos 60.
Entre essas escolas que vieram compor a UNESP, pode-se observar, de um lado uma certa identidade. Um grupo bastante expressivo, formado por sete unidades universitárias, num conjunto de 14, ocupando amplo espaço, constituído pelas chamadas Faculdades de Filosofia, voltadas preferencialmente para a formação de professores que deveriam compor os quadros das escolas secundárias do Estado. Desse conjunto fizeram parte a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, a de Araraquara, de Franca, de Marília, de Rio Claro e de São José do Rio Preto.
Em 1969 foi instituída, na Secretaria da Educação, a Coordenadoria do Ensino Superior do Estado de São Paulo (CESESP), com a finalidade de gerir a administração daquelas escolas.
Em 1976, por determinação do então governador Paulo Egydio Martins, e de comum acordo com o Secretário da Educação, essas escolas deixaram o CESESP para assumir uma direção própria, na forma Universidade, uma autarquia submetida ao governo do Estado de São Paulo. De conformidade com a Lei 952 de 30 de janeiro de 1976, foi criada a Universidade Estadual Paulista que recebeu do governador o nome de “Júlio de Mesquita Filho”, da qual passavam a fazer parte os Institutos Isolados.
Democratização e expansão foram as bandeiras defendidas pela universidade na passagem dos anos 80 para 90. Ainda durante esse período a Universidade esteve à procura da formação de uma identidade que pudesse superar sua marca de origem, a excessiva fragmentação. Esta procura significou uma aproximação cada vez maior da Universidade com o interior do Estado de São Paulo, ao atender aos insistentes apelos das comunidades do interior, quer pela incorporação de novos espaços, como no caso da Universidade de Bauru (1987), do IMESPP (1989), ou ainda, na busca de um aprimoramento da criação de novos cursos como no caso da incorporação do IFT (1987).
Durante toda a década de 1990 a UNESP ampliou seu raio de atuação, sobretudo na forma de aumento da oferta de vagas. Mas em 2003, atendendo a numerosas solicitações e de acordo com a política do governo estadual de promover maior incremento do ensino superior público, a UNESP se expande em várias direções com a criação das então chamadas Unidades Diferenciadas, atualmente denominadas Campi Experimentais (2006).
[Fonte: História da criação da UNESP]
A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara
A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, criada como Instituto Isolado Superior do Estado de São Paulo em 1957, pela Lei Estadual nº 3.842, foi autorizada a funcionar através do Decreto Federal nº 45.776, de 13 de abril de 1959, ano em que iniciou suas atividades. Integravam-na, na época, os cursos de Pedagogia e de Letras.
O Curso de Ciências Sociais teve início em 1963 por Deliberação do Conselho Estadual de Educação. Pelo Decreto Estadual de nº 44.566, de 22 de fevereiro de 1965, a Faculdade teve os seus cursos reconhecidos. Inicialmente instalada, em caráter provisório, no Grupo Escolar “João Manoel do Amaral”, no Bairro da Fonte, a então Faculdade de Filosofia foi transferida, em 1961, para o prédio do antigo Instituto de Educação “Bento de Abreu” de Araraquara, na Praça Santos Dumont, onde funcionou até 1973, data em que foi transferida para o “Câmpus” Universitário (km 1, da Rodovia Araraquara-Jaú).
A 30 de janeiro de 1976, pela Lei Estadual nº 952, era criada a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp, que reuniu os 22 Institutos Isolados do Estado de São Paulo, entre os quais a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. A 26 de janeiro de 1977, através do Decreto Estadual nº 9.449, passou a Faculdade a denominar-se Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação – ILCSE e, em 22 de abril de 1989, com o novo Estatuto da UNESP, Faculdade de Ciências e Letras – FCL.
Em setembro de 1981, foi aprovada a instalação do Curso de Ciências Econômicas, cuja implantação deu-se em 1983. Em 1989 teve início o Curso de Administração Pública.
Após 45 anos de existência, a FCL conta com cinco cursos de graduação devidamente reconhecidos pelas instâncias governamentais competentes, sendo todos oferecidos em dois períodos, diurno e noturno, num total de mais de 2300 alunos matriculados.
Na Pós-Graduação são cinco Programas de alto nível, reconhecidos pelas CAPES/MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), somando até 2004 mais de 800 defesas, entre teses de doutorado e dissertações de mestrado.
[Fonte: História da criação da FCLAR]
O Doutorado em Sociologia
O Programa de Pós-Graduação em Sociologia tem como missão consolidar a formação de sociólogos qualificando-os para a profissionalização na pesquisa e no ensino, com a perspectiva de contribuírem para a compreensão dos problemas sociológicos contemporâneos, com ênfase na sociedade brasileira e em sua diversidade regional. Está estruturado em quatro Linhas de Pesquisa: Cultura e Pensamento Social; Estado, instituições e políticas públicas; Gênero, etnia e saúde; Sociedade civil, trabalho e movimentos sociais.
Este Programa resulta do esforço coletivo de docentes do Departamento de Sociologia e Departamento de Antropologia, Filosofia e Ciência Política e de dois docentes do Departamento de Economia, todos da Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, campus de Araraquara Apesar destas diferentes origens departamentais, a produção bibliográfica do Programa está centrada nas áreas da: Sociologia da Cultura e Comunicação; Sociologia da Diversidade; Sociologia dos Movimentos Sociais; Sociologia Política; Sociologia da Violência e da Segurança Pública.
Programa vinculado à Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais, (ANPOCS) e recomendado pela CAPES, com nota 5.0, desde a avaliação de 1999.
O Programa de Pós-Graduação em Sociologia surgiu há 27 anos – criado pelos, então, docentes do Departamento de Sociologia, da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP/Araraquara – com duas grandes áreas de concentração: Sociologia Rural e Sociologia Urbana. Até meados de 2001 a área de Sociologia Rural foi responsável por 34% da produção das dissertações e 23% das teses do Programa. Esta situação mudou paulatinamente com a saída de inúmeros docentes e pesquisador(a)s desta área e o Programa passou a atuar na área geral de Sociologia, diversificando suas linhas de pesquisa, de acordo com a produção de seus integrantes. De 2001 a 2008 o Programa passou de suas tradicionais Linhas de Pesquisa (Agricultura, Industrialização no Brasil; Classes e Movimentos Sociais; Cultura e Ideologia; Estado, Desenvolvimento e Políticas Públicas; Família, Relações de Gênero e Saúde) para quatro Linhas de Pesquisa, entre as quais, observa-se tanto uma continuidade temática, como a inserção de novas questões sociológicas.
Lista dos Docentes com seus CV Lattes
[Fonte: Apresentação do Programa de Pós-Graduação em Sociologia]
A seleção para o Doutorado 2009
Com uma trajetória universitária interessante, passando por Natal / RN nas graduações (bacharelado e licenciatura), o Augusto faz parte agora do novo corpo discinte da UNESP-FCLAR. A UNESP, que está entre as 500 melhores Universidades do mundo, é a sua nova casa do saber. Continua a sua luta para afirmar as suas idéias (que, obviamente, como já foi dito neste blog, não são “suas”, apesar de muit@s pensarem que são, @s mesm@s que têm seus castelos de ficção de saber) em um clima universitário apaixonante. A orientação de sua pesquisa sobre o amor agora também com a crítica do pensamento de Jacques Lacan será conduzida pela Professora Doutora Lucila Scavone, que é uma das principais intelectuais feministas no Brasil.
SELEÇÃO DE DOUTORADO 2009 – LISTA CLASSIFICATÓRIA
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Contra o amor e outros assuntos
Abril 27, 2009 · Deixe um comentário
Car@s,
Como dito anteriormente, falaremos sobre:
(a) a seleção de doutorado no Programa de Pós-Graduação de Sociologia da UNESP-FCLAR e a própria Universidade; e
(b) a nossa pesquisa sobre a domideologia de amor, com os seguintes pontos, os quais não serão abordados necessariamente de um modo completo:
- O que é ideologia?
- O que é dominação?
- O que é domideologia?
- O que é domideologia de amor?
- Por que criticar a domideologia de amor?
- Por que criticar a domideologia de amor move as posições conservadoras do senso comum, dos pares universitários e da psicanálise?
O ponto “(c)” é uma série de postagens nomeadas de Contra o amor?
Boas leituras e bons estudos,
Crítica da Domideologia
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Crítica para @s inteligentes
Abril 22, 2009 · Deixe um comentário
Leitoras e leitores deste blog,
estamos de volta para postar semanalmente conteúdo crítico. Pedimos desculpas aos leitores que tentaram acompanhar um blog que não atualizava constantemente. São poucos os leitores ainda, é verdade. A nossa preocupação inicial é formar um conteúdo interessante, que tem a ver com o nosso projeto intelectual. Depois, procuraremos agregar mais gente nas discussões críticas. A nossa ausência se deve a uma série de motivos. Em dezembro, o Augusto teve seleção de doutorado na UNESP de Araraquara. Foi selecionado em terceiro lugar. A Laurisa estava com milhares de trabalhos na pós da FESPSP. Além disso, muito trabalho no portal do SESC. Depois de tanto trabalho de ambos, resolveram partir para umas férias bem gostosas em Blumenau/SC. Na volta, milhares de coisas para fazer, as exigências do trabalho no SESC para a Laurisa e do doutorado para o Augusto. Falaremos sobre tudo isso. Pretendemos também debater sério sobre a nossa pesquisa nos próximos posts. Acompanhem.
Muito obrigad@ pela anteção,
Crítica da Domideologia
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Estamos de férias :-)
Novembro 29, 2008 · 2 Comentários
Nossas férias duram até o dia 18 de janeiro. Estamos providenciando o arquivo em PDF do nosso livro “O amor em mal-estar” para o Google Books. O atraso aconteceu devido às configurações do arquivo. Muito em breve aparecerá. Muito obrigad@.
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Slavoj Zizek no ciclo de conferências Mutações do SESC SP
Novembro 29, 2008 · Deixe um comentário
SLAVOJ ZIZEK NO CONTEXTO DAS MUTAÇÕES CONTEMPORÂNEAS
Augusto César Francisco
No dia 14 de outubro, assistimos à palestra do professor Slavoj Zizek no SESC Vila Mariana de São Paulo. Ele começou a conferência falando sobre ideologia, no discurso pós-marxista. Falou sobre alguns recursos da ideologia, dentre os quais o principal é a necessidade atual de elegermos uma entidade para que ela acredite por nós na coisa ideológica. Diz ele, embalado por aquela teorização sobre o cinismo, que hoje nós não precisamos mais acreditar na ideologia, desde que ela funcione. Que não acreditamos mais na crença, mas na funcionalidade da crença; e se a crença funciona na realidade, então é porque acreditamos em uma entidade que acredita nessa crença. Deu exemplos dos discursos do Rumsfeld nos EUA, exemplificando: 1) aquilo que a gente sabe que sabe; 2) aquilo que a gente sabe que não sabe; 3) aquilo que a gente não sabe que sabe; e 4) aquilo que a gente não sabe que não sabe. Segundo ele, a ideologia está no 4), e esse discurso de não saber o que não se sabe foi a justificativa da invasão do Iraque. Talvez, um tipo “Nós não sabemos que não sabemos se o Iraque tem uma bomba atômica”.
Depois, ele acrescentou o exemplo de uma piada: a gente elege uma galinha como uma entidade que acredita em uma funcionalidade que prescinde da nossa própria crença. Ele deu como exemplo a psicose de uma anedota, em que o camarada se acreditava como um grão de milho e estava com medo de que a galinha fosse pegá-lo. Daí, o psiquiatra diz que ele não é um grão de milho, que isso é apenas ilusão da cabeça dele. O paciente diz, então, que pode até acreditar que ele não é realmente um grão de milho, mas questiona sobre a crença da galinha; ela acreditará realmente que ele não é um grão de milho?
Deu muitos exemplos, em relação à religião, cultura… para dizer sobre essa entidade que substitui a nossa crença ideológica. Deu o exemplo dos comodities, de que ele sabe que ele sabe que se todos retirarem o seu crédito do mercado, a bolsa vai quebrar. O que dá medo nele não é ele não saber que todos sabem disso também, porque se todos sabem e não retiram o dinheiro significa que a crença na entidade funciona. O que dá medo é ele não saber que todos não sabem disso, porque todos podem passar a saber.
Depois, ele chegou em um ponto que critico nele. Falando sobre a crença, ele afirmou que as histórias são mentirosas, e deu o exemplo de uma gafe que cometeu com a Judith Butler. Ele estava em uma conferência com ela, que estava acompanhada de uma linda moça lésbica também, e ele comentou de modo preconceituoso que a moça era muito bonita, mas era “lésbica”, como se fosse uma aberração. A Butler ficou muito indignada com o comentário, e depois, Zizek ligou para ela pedindo desculpas. Daí, ela disse “tudo bem, você é meu amigo etc e tal”. A crítica do Zizek é justamente que esse tipo de situação é mentiroso porque se ele não ligasse pedindo desculpas ela jamais teria dito que estava tudo bem. Eu achei esse tipo de crítica dele muito à la Mannheim, daquela coisa de que se todas as práticas são mentirosas, então tudo é mentira. Achei muito “relativismo absoluto”. Assim foi também na crítica dele sobre a tolerância. Ele está certo, por exemplo, em dizer que Martin Luther King nunca disse nada sobre tolerância no discurso político, e que os movimentos não querem que os outros sejam tolerantes. Eles está certo ao dizer que as lutas são por direitos, dinheiro, e coisas “reais”, que mudam a lógica das práticas. Mas o critério de análise dele foi, ao meu ver, de um relativismo absoluto, afirmando que se as práticas são mentirosas, tudo é mentira e a tolerância aí também está.
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Como está a nossa Universidade?
Novembro 23, 2008 · 2 Comentários
O IDEAL DE UNIVERSIDADE E DE SUA MISSÃO
Alípio de Sousa Filho – Professor da UFRN, Doutor em Sociologia pela Sorbonne
Desde seu surgimento – nos séculos XII e XIII –, as universidades têm sido acusadas de indiferentes às necessidades da sociedade, de serem centros de erudição monástica, lugar de diletantes, entre outras coisas. Tais acusações despertaram, no dizer de Kenneth Minogue, uma verdadeira “tradição de ataque à universidade”. Com o autor, podemos dizer que a história da universidade é a de uma instituição incompreendida, em torno da qual sempre esteve a idéia da necessidade de reformas. “Reformar a universidade” é idéia que coincide com a própria história da universidade nos diversos países.
(…)
Os ataques dirigidos contra as universidades (notadamente as públicas), há anos, seja na forma das acusações dirigidas a ela por agentes econômicos, seja na avaliação feita por dirigentes políticos, autoridades públicas, constituem, como dissemos, a forma de um cerco a que essas instituições sempre estiveram submetidas na história. Um cerco que tem na doutrina da necessidade de “adaptação da universidade à sociedade” um de seus pilares principais, sempre acionada por meio de eufemismos que procuram esconder a exigência de que a universidade se abra a interesses estranhos ao conhecimento teórico desinteressado – que deve ser seu único fim: conhecimento da realidade humana, histórica, social, conhecimento da natureza, sem fins práticos predeterminados por interesses que não sejam os do próprio conhecer ou definidos por demandas sociais que sejam de interesse da maioria social ou que representem contribuição ao desenvolvimento social, à emancipação humana, à democracia, aos direitos humanos universais.
(…)
A universidade precisa manter-se livre das pressões sociais – e mesmo também da pressão dos setores populares – porque, se fizer concessões ao pragmatismo, rebaixará suas tarefas a situações conjunturais, a demandas específicas, correndo o risco de se desfigurar a longo prazo. É sabido que essa visão é recusada por homens de negócio, por militantes das chamadas causas sociais, e por dirigentes políticos, que gostariam de ver a universidade servindo a imediatismos, mas é preciso que os universitários resistam como aqueles que são os únicos que podem sustentar o ideal de universidade. Citarei K. Jaspers mais uma vez: “Se a universidade baixa de nível, a sociedade e o Estado naufragam com ela.”
(…)
Desse modo, a missão da universidade, quanto a si própria e à sociedade, é tornar-se o lugar da formação de uma elite intelectual, cultural e científica. Esta não é uma elite de classe, mas uma elite de espírito. Nem por isso elitista e diletante. O sentido de ser elite aqui é apenas o do elevado grau de compreensão da realidade que passam a ter todos aqueles que se beneficiam da educação no modo teórico-filosófico-científico de pensar, que as universidades são lugares em que se deve praticar sem descanso, e que a sociedade deve procurar alargar o acesso a tantos mais quanto seja possível. Um alargamento que não pode ser acompanhado do rebaixamento do nível de ensino e do rigor para com as coisas da ciência. A estrita autodisciplina a cumprir para os deveres da atividade científica de produção do conhecimento exige uma educação que não suporta o baixo nível que, em geral, se vem admitindo com a massificação do ensino superior.
(…)
Como vivemos em sociedades divididas em interesses, a missão da universidade define-se com relação a esses interesses e ao conflito destes. Se pensarmos o caso da universidade pública, uma clara opção se torna necessária: mantida com recursos públicos, ela somente pode se destinar àqueles interesses que realizem interesses públicos, coletivos, o interesse geral, o bem comum. Isso não deve significar “universidade dos pobres”, “universidade dos trabalhadores”, “universidade popular”. Essa idéia é um atentado ao conceito de universidade. Na universidade, o conflito de interesses não é luta de classes, nem o conflito de interesses tem sua solução na opção demagógica por classes.
(…)
A sociedade deve saber que a universidade não pode ser populista em seus princípios. O populismo e a demagogia podem levar a universidade à sua falência total. Dirigentes, professores, funcionários e estudantes universitários não podem ser demagógicos em suas visões da universidade. Assim, certos modelos de avaliação e propostas de reforma de currículos, métodos de ensino, duração dos cursos, níveis de exigência, etc., sob o pretexto de tornar a formação universitária mais flexível, adaptada aos tempos, produtiva, útil, colocam em risco a universidade, a educação superior, a produção do conhecimento teórico, a ciência.
(…)
[Texto completo na página do professor Alípio de Sousa]
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Strange fruit – Billie Holiday
Novembro 21, 2008 · Deixe um comentário
Strange fruit
Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.
Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.
Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.
Fruta Estranha
Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros balançando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.
Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimando.
Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Par o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Aqui está a estranha e amarga colheita.
***
As colonizações ainda mostram atualmente o que foram. Como isso é no Brasil?
Por que o “branco” é dominante e tenta nos submeter? Contra o essencialismo branco; a favor das múltiplas possibilidades de viver. Ser negr@ (negra e negro) é uma das nossas possibilidades de viver. Pela igualdade de salários, acesso aos bens públicos e privados, por respeito nas entradas simbólicas da sociedade! O racismo não está somente na fala; está também no pensamento. Só se fala com o pensamento e só se pensa com a fala.
Fontes: Letras Terra 1 e Letras Terra 2
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Ser negro no Brasil hoje – texto de Milton Santos
Novembro 20, 2008 · 2 Comentários
SER NEGRO NO BRASIL HOJE
Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro
Milton Santos
Há uma freqüente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.
500 anos de culpa
Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a freqüentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política conseqüente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se próxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?
Hipocrisia permanente
No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo. Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é? Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é freqüentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambigüidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.
Marcas visíveis
Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.
Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é freqüente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.
A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.
Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro - imagem fácil - e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambigüidade a que já nos referimos, cuja primeira conseqüência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.
Olhar enviesado
Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel freqüentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em “faits-divers”, em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.
Ser negro no Brasil é, pois, com freqüência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranqüilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver “subido na vida”.
Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.
Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Fonte: Folha de S.Paulo – Mais – Brasil 501 d.c. – 07 de maio de 2000
Fonte: Antroposmoderno
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O afresco “A criação de Adão”, da autoria do artista renascentista Michelangelo Buonarroti, à luz do pensamento de Judith Butler.
Novembro 19, 2008 · Deixe um comentário
A CRIAÇÃO DE ADÃO E A PERFORMATIVIDADE DOMIDEOLÓGICA DE AMOR
Augusto César Francisco
Nossa problemática da crítica da domideologia do amor relacionado ao sexo/gênero e à geração está desenhada em A criação de Adão, do pintor Michelangelo Buonarroti, um afresco pintado no teto da Capela Sistina por volta de 1511. Nesse afresco, que simboliza o momento da criação de Adão por Deus na narrativa bíblica do Gênesis, Deus aparece sustentado por anjos e uma figura feminina, que está sendo abraçada por Ele, com o braço esquerdo. Com o braço direito esticado e com o indicador apontado para o indicador da mão esquerda do braço esticado de Adão, Deus cria Adão. Este está semideitado sobre uma grande pedra com relvas, com o braço direito apoiado sobre ela, e o braço esquerdo esticado, com o dedo indicador passivamente na iminência do toque de Deus. Deus é apresentado como um ancião, vestido com um manto, enquanto Adão é um jovem nu.

O que chama a atenção imediatamente é que, embora Deus e Adão estejam no mesmo plano, numa simetria, Deus surge de um espaço interior e Adão de um espaço exterior. Deus surge de uma abertura cheia de seres compostos de maneira aleatória, segurando-o, alguns seres acabados, outros inacabados, alguns com a forma humana, outros com a forma inumana. Esses seres parecem perder-se dentro do vão, alguns apresentando somente uma silhueta; quanto mais fundo, menos têm a forma humana. Adão está perfeitamente acabado, sobre uma superfície, apresentando uma integridade humana. Se formularmos que esse ato, a criação de Adão, é uma lei, cujo poder é a própria criação, estaremos diante do que essa lei, por antecipação, ratifica. Adão, mesmo sem ter sido criado, já apresenta movimento em direção a Deus, e a figura feminina, supostamente Eva, já foi criada antes do ato de criação. Deus não surge senão de um vão, de onde a profundidade apaga as fisionomias humanas. O efeito de profundidade e superfície – profundidade em relação a Deus, e superfície em relação a Adão – é um efeito de poder, quando Deus cria Adão semelhante à sua imagem, mas não se sabe de onde veio a imagem de Deus. Se interpretarmos como um processo, esse ato nos revela que atrás de Deus estão figuras humanas que se tornam cada vez mais inumanas à medida que estão ao fundo do vão, sendo que, por meio da lei da criação, Adão é apresentado completo e perfeito, mas com um efeito de superfície. O processo nos revela que para Adão levantar o braço, ele já tinha sido criado anteriormente, assim como a figura feminina (supostamente Eva), que apóia Deus (sem ter sido criada). Se pensarmos no que representa, não podemos tirar a atenção de que se trata de um ancião e de um jovem, ambos masculinos. Se pensarmos em efeitos temporais dessa lei, podemos imaginar um vão profundo com um mundo inominado que se abre concomitantemente à figuração de Deus, masculino, culminando na suposta aparição de Adão, cuja imagem é semelhante a Deus. Posteriormente, Deus sumiria dentro desse vão, se o movimento temporal continuasse.
A pintura nos mostra que a lei tem um efeito material de superfície sem deixar de pressupor o antes do ato ratificado no depois do ato, como as formas vão se tornando humanas culminando em Deus e em sua autocriação na figura de Adão. O antes, contudo, é escondido, porque está perdido dentro do vão (a dominação está perdida na representação!) – mas pressupõe formas humanas. A pressuposição também coloca um Deus como pai e um adão como filho, ambos masculinos. Aqui, a lei é o efeito masculino por meio do princípio falogocêntrico. Se transgredirmos as normas temporais e espaciais, percebemos que Adão se torna Adão (vimos que ele já tinha sido criado antes de Deus criá-lo) identificando-se com Deus – Adão vai ao alcance de Deus, mesmo não tendo sido criado. Podemos dizer que Adão foi interpelado por Deus, por essa identidade ontológica que pressupõe a figura masculina, acabada, coerente e fixa. Nesse tempo mítico, Adão é coagido a tornar-se Deus. A lei da criação de Adão deixa essa imposição de identidade flutuante, porquanto há um efeito de superfície sim, mas não sem o “risco” dessa superfície se transformar em outras coisas de Deus, no antes inumano do ato, inclusive de se transformar na figura feminina. O ato em si não quer dizer nada, mas as pressuposições do ato, a maneira pré-discursiva das figuras que apóiam Deus, e a imposição pré-social da lei masculina da criação nos dizem muito.
Se acrescentarmos o amor no ato de criação de Adão por Deus, a pintura se torna ainda mais interessante. Se Deus cria Adão por amor, esse amor é de um homem para um homem e de um pai para um filho, colocados antecipadamente à criação, e tirando todas as outras possibilidades de amor ter surgido com um outro plano divino. Se levarmos às últimas conseqüências, Adão se identifica com o amor domideológico de Deus (amor paterno de pai para filho), numa exclusão abjeta do feminino (da filha?) que se encontra ao lado de Deus, e de todas as outras possibilidades inumanas que O acompanham. A imposição reiterada a Adão é que ele se torne antes homem e filho, diante de um Deus que toma a lei para si e se faz crer como masculino e paterno. Ao tomar a lei de amor como masculino e paterno, ele pressupõe que antes da criação era tudo esse amor, ratificando esses elementos pré-discursivos nos efeitos da lei. A coerência e a fixidez não funcionam sem colocar os efeitos materiais de superfície na criação, enquanto a identidade da criação corre o risco subversivo de afundar no buraco. O que vemos são efeitos da lei, expressões tidas como resultado. O sexo/gênero, a geração e o amor são efeitos (nota 1), pressuposições que perdem a sustentação quando a lei se mostra levando-as consigo desde um tempo mítico até a ratificação. A criação é um toque de um Deus ativo para um Adão que surge passivo, é um gesto de geração de um pai para seu filho, de um homem para outro, e de amor. O que vem de dentro é a dominação desse discurso, cujos efeitos são repetitivos: o que vem de dentro é o “Pai”, é “Masculino”, é “Deus”, e são todos os seres que O sustentam. O fundo real do simbólico é a dominação desse simbólico não na figura de Deus, nem no cenário desse teatro fantástico, senão no próprio encenar, na performatividade que isso representa, da repetição constante desse discurso, na coação a representar e teorizar conforme manda o figurino, “Deus” na pele de “Deus”, “Adão” na pele de “Adão”, repetidas vezes, em direção ao eterno retorno.
Nota 1: “Nesse sentido, o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra. No desafio de repensar as categorias do gênero fora da metafísica da substância, é mister considerar a relevância da afirmação de Nietzsche, em A genealogia da moral, de que ‘não há ‘se’ por trás do fazer, do realizar e do tornar-se; o fazedor é uma mera ficção acrescentada à obra – a obra é tudo’. Numa aplicação que o próprio Nietzsche não teria antecipado ou aprovado, nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero por trás das expressões de gênero; essa identidade é performativamente constituída, pelas próprias ‘expressões’ tidas como seus resultados” (Judith BUTLER, Problemas de gênero, 1999, p. 48). Poderíamos também dizer que não existe identidade de amor “por trás” das expressões de amor – a identidade de amor que possivelmente é o fundamento da criação, o motivo divino principal, é um efeito performativo da criação; os efeitos do amor que trazem uma aparência de identidade: dos homens que amam.
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Aniversário de seis meses do nosso livro “O amor em mal-estar”
Novembro 15, 2008 · Deixe um comentário
No dia 15 de maio deste ano (2008), lançamos o nosso livro O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia na Casa das Rosas da cidade de São Paulo, um dos lugares mais bonitos para realizar uma cerimônia de lançamento. Eis a nossa fala na cerimônia:
Não é mero acaso o que conquistamos. Contamos com a colaboração de muitas pessoas, principalmente os nossos amigos, familiares e professores.
Nossos agradecimentos para:
A Casa das Rosas, a Associação Paulista dos Amigos da Arte e as maravilhosas pessoas que as mantém com o trabalho poético empolgante. A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo, que são responsáveis pela iniciativa da Casa das Rosas.
A UFRN e o CNPq, instituições que receberam e financiaram a pesquisa. O DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) pela bolsa Winterkurs, que me ajudou no alemão de Freud e permitiu visitas nos museus de Freud em Viena e em Londres.
A Booklink Publicações e o Editor Glauco de Oliveira, que ajudam os escritores que não querem se submeter a um mercado editorial desumano. Não era Voltaire que publicava os seus próprios livros (como muitos franceses da época)? Seriam aceitos em uma Editora Só Quero Dinheiro? Vejam (e contribuam com) a Coleção Diversidade da Booklink, organizada pelo teórico Solimar Oliveira Lima (Homossexualidades sem fronteiras 1 e 2, e Aids e seus desnudamentos)
O Francisco Santinho, que foi o diagramador e artista do trabalho da capa e de toda a divulgação do lançamento. O Chico, como o chamamos carinhosamente, é um amigo e brilhante artista, produzindo as mais belas peças gráficas com uma sensibilidade inesgotável. É claro, ele faz também por prazer. Quem estiver interessad@ (interessada ou interessado, por isso o “@”) em capas de livros e outras artes, pode entrar em contato conosco pelo e-mail domideologia@gmail.com, que o repassamos para o Chico. O desenho com o qual o Chico trabalhou se chama Les amants (Os amantes), de autoria do Alberto Lamback, artista plástico de grande talento formado na escola francesa e estudando agora em Londres, e um amigo que acolheu o Augusto quando estava precisando.
A Cláudia da Costa Melo, revisora de português e uma amiga que também nos acolheu quando precisávamos. Se houver interessados em revisão, por favor, envie-nos um e-mail.
O professor Alípio de Sousa Filho – um brilhante teórico contemporâneo que pensa à luz do ano 68 na prática –, que sempre incentivou a produção autônoma e independente, e a professora Lore Fortes, excelente pesquisadora e uma amiga querida – ela me deu uma moedinha para dar sorte em uma viagem que fiz; essa moeda me ajuda até hoje, pois é uma significante parte da minha sorte e felicidade.
A professora Sônia Maluf, pelas excelentes aulas sobre o feminismo e sobre Judith Butler, que é uma referência importante da nossa pesquisa, e a professora Maria do Socorro de Oliveira, pela leitura e contribuição com a pesquisa; ainda, a professora Viviane Herbele, pela generosidade de ceder algumas referências para xerox, principalmente de Bourdieu.
A Arlete Prade (mãe do Augusto), pela leitura do texto da dissertação, que virou livro. Obrigad@, querida.
A Ana e seu companheiro Jack (irmã e cunhado do Augusto), que sempre nos acolhe para o que precisamos. Aos nossos familiares queridos, que são uns fofos e nos ajudam a crescer.
A Rosa Maria de Oliveira, uma amiga querida que enviou muitos textos. Ela está concluindo uma pesquisa belíssima, uma excelente contribuição para a ciência humana. Em breve, ela divulgará a sua pesquisa, a qual estamos ansiosos por ler.
A Nadja Paiva, pela sua ajuda com as referências de Freud.
O Bruno Merini, pela compra de livros lá dos EUA, que na época nem sabíamos como comprar.
As jornalistas Jô Laps e Carol Passos pelo incentivo.
A tod@s (todas e todos) que contribuíram indiretamente para a realização da nossa pesquisa, nossos profundos agradecimentos.
Sem vocês tod@s, não seria possível realizá-la e muito menos continuar vivendo.
Quem desejar ler outras informações sobre a nossa pesquisa, pode clicar no Aniversário de um ano da defesa de “O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia”.
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Um homem está grávido pela segunda vez e terá mais uma criança!
Novembro 13, 2008 · 1 Comentário
Foi noticiado hoje pela ABC (Barbara Walters Exclusive: Pregnant Man Expecting Second Child) que Thomas Beatie dará à luz uma segunda criança. Vejam o vídeo:
Trouxemos a reflexão sobre o fato que desestabiliza a “ordem do amor materno”, embora isso reforce paradoxalmente a “ordem da família”. Beatie será pai novamente, um pai grávido: “Eu usei meus órgãos reprodutivos femininos para tornar-me um pai”, diz ele. Veja aqui o nosso artigo anterior: Um homem estava grávido e deu à luz um filho. Há muita gente revoltada com Beatie: pessoas homofóbicas e misóginas, que não admitem que as suas crenças possam ser contestadas por outros fatos culturais. A verdade é que o real está “invadindo” a realidade, como diria o teórico Alípio de Sousa; e essa expansão da realidade social é contrariada pela ameaça da domideologia, que nos diz que as coisas sociais são naturais, divinas, eternas e universais. Pois aí está o fato que balança com a religião e com a moral (é, Presidente Lula e Papa Ratzinger, não adianta vocês virem com acordos religiosos – veja em globo.com! Enquanto vocês aderem ao conservadorismo, a dialética social mostra a sua cara. Não esqueçamos que o Vaticano é contra o uso de meios de contracepção e contra o casamento de parceiros do mesmo sexo – Thomas Beatie deve ser o Satanás para essa gente! Mas quem mesmo vendeu a alma para o diabo? – É, senhores, a República não se esquecerá)…
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INAUGURAÇÃO DO NOSSO BLOG: 14/11/2008
Novembro 4, 2008 · 2 Comentários
Laurisa Alves e Augusto César Francisco
Estamos muito felizes de poder dizer que o nosso blog Crítica da Domideologia será comemorado no dia 14 de novembro de 2008. É um tipo de inauguração, motivo para dizer e divulgar: ele está “no ar”. É muito gratificante ver o nosso trabalho materializado em um blog, que aqui é um espaço crítico dos discursos da cultura e, principalmente, crítico das homofobias/misoginias/racismos.
Devemos brindar – escolhemos um lugar maravilhoso para comemorarmos! Tod@s estão convidad@s para comemorar conosco e com muita alegria no dia 14 de novembro, às 21h, no SESC Pompéia (São Paulo/SP), durante o Festival Mix Music, que é parte do Festival Mix Brasil de Cinema. É uma festa LGBT que alegrará a noite paulistana, e particularmente a nossa, na sexta-feira (14/11).
No Festival Mix Music, haverá a participação de Rita Ribeiro, Maria Alcina, a paraguaia Perla, Márvio (vocalista da banda Cabaret) e Tatá Aeroplano (vocalista do Cérebro Eletrônico), acompanhados por uma Big Band de músicos da cena independente nacional: Astronauta Pingüim nos teclados e direção musical, Alexandre Kanashiro (The Gasolines) na guitarra, Geórgia Branco (As Mercenárias e Wander Wildner) no baixo e Clayton Martim (Cidadão Instigado).
E no dia 15 de novembro, traremos um post especial para o blog, aguardem.
Muito obrigad@,
um beijo.
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Um homem estava grávido e teve um filho!
Novembro 4, 2008 · 6 Comentários
Augusto César Francisco
A imprensa mundial (Times1, Times2, Globo…) noticiou neste o ano o fato de Thomas Beatie (34 anos) estar grávido e de ter dado à luz uma criança nos EUA. Beatie nasceu uma “mulher” chamada Tracy Longodino e trocou legalmente de sexo, tendo se casado com Nancy, que não pode ter filhos devido à sua histerectomia (a remoção do útero por meio de cirurgia). Como tinham o desejo de ter filhos, Beatie, que apesar de ser legalmente “homem” tem os órgãos femininos capazes de gerar filhos, se responsabilizou por engravidar. Esse fato abre um precedente para a crítica da domideologia de amor, pois desarticula a ficção dominante de que o amor materno é o principal veículo entre a sociedade e o novo serzinho (que vem surgindo). Não é mais o amor materno que está em jogo; aqui, evidencia-se no discurso o “amor paterno”, com a justificativa de que “ter uma criança biológica não é nem um desejo masculino e nem feminino, mas um desejo humano”, segundo Beatie. A partir desse momento, o homem pode dar à luz, portanto.
O amor materno criticado nas ciências humanas do século XX e XXI pode desligar-se do gênero, finalmente, mas ainda não se desligou do “desejo humano”. Acreditamos que é muito interessante o fato que, por si só, já contesta criticamente as nossas crenças na nossa sociedade particular, que nos insta a acreditá-la como a sociedade universal. De fato, o amor materno deixa de ser acreditado como o universal, passando a ser particular em relação ao amor paterno, que agora pode reivindicar os “direitos naturais” da reprodução materna. Contudo, e apesar de serem particulares, esses amores (masculino e feminino em relação biológica com a reprodução) são considerados universais na nossa sociedade particular. Isso implica que onde não houver amor biológico na reprodução, não haverá também possibilidade social de viver. E um exemplo típico da nossa pesquisa esclarece que essa necessidade biológica, ou natural, do ser humano amar, não é tão natural assim; é, antes, uma imposição social. O conceito freudiano de desamparo é a prova incontestável de que se tenta aplicar em uma ontologia os efeitos discursivos do amor: a ontologia é a da criança que nasce desamparada para ser amada.
Parece-nos que desde 1932, pelo menos, com a publicação de Brave new world, da autoria de Aldous Huxley, existe a possibilidade discursiva do ser humano não necessitar mais dar à luz filhos. Na sociedade narrada por Huxley, as crianças eram geradas por máquinas do Estado, e este cuidava da educação dos cidadãos hierarquizados. Se há discursivamente a possibilidade de não ter filhos, há concomitantemente, no mínimo, um deslocamento das crenças nos corpos que geram filhos com amor. Por mais bestial que isso possa parecer – abjeto mesmo! -, é algo que a crítica deve levar em consideração se quer que as crenças movidas pela força simbólica da sociedade sejam desarticuladas. A construção de Huxley pode significar, portanto, que a nossa realidade particular de amor, no sentido mais biologicamente determinado, é uma construção social passível de ser contestada, para o malogro dos essencialismos biologizantes.
A conquista de Beatie é, sem dúvidas, coletiva, e agrega forças críticas para descontruir a domideologia do amor. É um primeiro passo para que, posteriormente - não se sabe quando! -, percebamos que a realidade social do amor foi apenas mais uma construção social investida de dominação e ideologia (que justificou muitos dos nossos assassinatos, machismos, ciúmes, invejas, homofobias, misoginias, racismos… violências religiosas, políticas, nacionais, enfim, todo o sectarismo de amor).
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La question humaine
Novembro 4, 2008 · Deixe um comentário
Augusto César Francisco
O filme francês do diretor Nicolas Klotz intitulado A questão humana narra os acontecimentos coletivos de uma multinacional alemã do ramo petroquímico instalada no nordeste da França e os acontecimentos particulares na vida profissional e pessoal de um psicólogo dessa empresa. Lançado em 2007, a produção tenta abordar como alguns princípios racionais da modernidade estão presentes na nossa vida cotidiana sem que nos apercebamos do fato, tecendo um paralelo muito sutil da moderna racionalidade nazista de classificação para a morte e da contemporânea racionalidade capitalista de classificação para o lucro – ambas renegando “a questão humana”. O palco dos acontecimentos é a empresa SC Farb, depois de uma reestruturação que reduziu o quadro de funcionários de 2500 para 1600, e o pensamento do psicólogo Simon (Mathieu Amalric), que deve executar uma tarefa de investigação para saber se o diretor regional está com a “saúde mental” afetada.
Com uma magnífica trilha sonora de Syd Matters, que acompanha o compasso quase alucinante do enredo, intercalando instrumentos simples de sopro e a mais eletrônica música, o filme retrata as conseqüências contemporâneas da racionalização da vida cotidiana. Simon, que teve um papel “indireto” na reestruturação da empresa na tarefa de estabelecer critérios de seleção, agora é convocado por Karl Rose – um dos diretores da filial da empresa na França –, sob as ordens da sede na Alemanha, a investigar a depressão do diretor geral Mathias Jüst, que apresenta uma série de “sintomas”. Disposto a cumprir o objetivo sem questionamento, Simon lança mão de meios profissionais antiéticos para infiltrar-se na vida pessoal do senhor Jüst, vasculhando a relação dele com o quarteto de músicos da empresa anos antes de sua admissão como psicólogo. Depois da reestruturação da empresa, o quarteto se desfez com a demissão de Arie Neumann.
Indo a fundo na investigação, Simon começa a se dar conta de um nível subterrâneo do que insistia aparentemente (na superfície) em se inscrever como “loucura” no contexto da empresa; é o nível da mesma racionalização do que houve no nazismo e do que há no capitalismo contemporâneo. Com a descoberta de que o senhor Jüst estava implicado indiretamente nos eventos da “solução final” dos nazistas, e de que Karl Rose era uma criança Lebesborn (sistema nazista de fazer nascer crianças puramente arianas que se submetiam apenas ao Estado; não tinham família), Simon começa a se dar conta de que os efeitos psicológicos da época nazista eram muito semelhantes aos vividos no presente por Jüst, considerando que o seu adoecimento psíquico poderia ser apenas a não conformação emocional com os princípios racionais de classificação capitalista para a finalidade de lucro.
Quando Jüst sai de cena, acometido por transtornos mentais e por uma tentativa de suicídio, no momento em que entrega as cartas anônimas que vinha recebendo a Simon, que passa então a recebê-las de um anônimo. Lendo as que recebeu de Jüst, dá-se conta de que se trata de explicações de como os nazistas executavam os judeus com a técnica racional de uma morte econômica, tudo detalhadamente como se fosse um manual. Recebendo agora essas cartas anônimas, de uma cidade do interior da França, Simon viaja até a cidade e descobre que o autor das cartas era o senhor Neumann, que fora anteriormente demitido da SC Farb (e agora é músico). Há um diálogo de extrema beleza entre Simon e Neumann, o primeiro acusando o segundo de anonimato, com a defesa deste de que o próprio sistema não pode ficar anônimo, ou seja, que o sistema da linguagem “neutra” era sim responsabilidade do sujeito. A língua “neutra” era aquela que classificava racionalmente para excluir sem que os seus autores fossem responsabilizados. Quando os autores são responsabilizados pelos seus atos, é porque a linguagem deixar de ser neutra, e as “funções” no seio da instituição não podem mais sustentar o “não humano”, a classificação perversa que exclui, o princípio de identidade que adere a si mesmo para expulsar tudo o que não seja de si:
– Arie Neumann?
– Sim, sou eu. Sente-se.
– É uma covardia enviar cartas sem assiná-las.
– Por que veio me ver?
– Sua última carta foi particularmente insultante.
– Você poderia tê-la rasgado, você poderia tê-la queimado.
– Talvez. Mas eu queria ver a sua cara.
– Cada um desses textos é assinado, com o nome ou pelo sistema que os produziu.
– É uma perversão não se mostrar à luz. Não é humano.
– Você está certo. As palavras são exatamente essas: ‘Não humanas’.
– Uma brincadeira no nome de Jüst.
– Uma brincadeira em um nome, uma palavra por outra. Uma semelhança. É tão banal nesses dias. Linguagem é um meio poderoso de propaganda. Ao mesmo tempo, é muito público e muito secreto. O efeito dessa propaganda não é produzido por discursos, artigos e tratos de propaganda. Penetram na carne e no sangue das massas. Você sabia que nós não temos hoje pessoas pobres? Só gente modesta. Nós não falamos mais de questões, por exemplo, a “questão social”, mas de problemas que nossos especialistas separam em uma série de problemas técnicos. Para cada um, eles encontraram a melhor solução individual. Formas eficientes. Sim, mas, as palavras esvaziadas de todo o significado. É uma quebra da língua. Uma língua morta, neutra, invadida por palavras técnicas. A língua que absorve sua humanidade. Você compreende?
Uma ótima idéia é assistir ao filme depois de ler o artigo Ciência e técnica como ideologia, de Jürgen Habermas. No Jornal Le Monde há uma reportagem interessante sobre o filme, e em Evene.fr há uma entrevista com o diretor, Nicolas Klotz, e com o ator principal, Mathieu Amalric.
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