Sexto número da Bagoas – Revista de Estudos Gays da América Latina

Sexto número da Bagoas – Revista de Estudos Gays da América Latina

O sexto número da “Revista Bagoas – Estudos Gays: Gênero e Sexualidades”
já está nas livrarias e também em formato eletrônico no site
http://www.cchla.ufrn.br/bagoas/

Lançada em dezembro de 2007 pelo Centro de Ciências Humanas, Letras e
Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a revista é
uma publicação semestral sobre os Estudos Gays com artigos resultantes de
trabalhos teóricos e pesquisas empíricas sobre homossexualidades (gêneros
e sexualidades), com destaque às reflexões sobre o homoerotismo,
lesbianismo, transgêneros, conjugalidades, parentalidades homossexuais e
identidades LGBTTs. Além disso, trabalhos de teoria social, análises da
política e reflexões sobre direitos humanos que constituam contribuições
ao pensamento crítico sobre as temáticas centrais.

Com a colaboração de pesquisadores do Brasil e do exterior, esta Edição da
Bagoas continua cumprindo o seu projeto original, firmando-se como
referência no campo dos estudos gays (gêneros e sexualidades). E não
apenas no meio acadêmico, pois a Revista oferece como horizonte “ao
debate, à discussão e à formação política de militantes e agentes
educativos o saber que tem sido produzido nas universidades e centros de
pesquisa”, como afirma o Editor Alípio de Sousa.

No plano social e político, a Bagoas identifica por um lado avanços
importantes no mundo inteiro, por outro, assume a tarefa de oferecer ao
público ferramentas teóricas e de pesquisa que ajudem a pensar
criticamente casos emblemáticos como o espancamento covarde contra pai e
filho que trocavam carinho no interior de São Paulo, em 14 de julho, ao
serem confundidos com “casais gays”. Esse exemplo é importante para
questionar o preço que a sociedade brasileira paga ao admitir a homofobia
e a heterossexualidade obrigatória.

Neste sexto número, a Revista publica os artigos:

1. Macho e fêmea Deus os criou!? A sabotagem transmodernista do sistema
binário sexual
Lorenzo Bernini
http://migre.me/5My05

2. “Coming out” en la escuela
Juan Cornejo Espejo
http://migre.me/5My1H

3. A pastoral do silêncio: Michel Foucault e a dialética revelar e
silenciar no discurso cristão
Durval Muniz de Albuquerque Júnior
http://migre.me/5My2q

4. Investigação epistemológica da homossexualidade feminina na obra de
Freud: uma perspectiva lewino-bruniana
Ricardo Lincoln Laranjeiras Barrocas
http://migre.me/5My3k

5. A importância da pulsão para a análise do corpo nas homossexualidades
Augusto César Francisco
http://migre.me/5My4i

6. Teoria queer e a resolução CFP n. 1/99: uma discussão sobre
heteronormatividade versus homonormatividade
Cleber Lizardo de Assis
http://migre.me/5My4W

7. Dos direitos humanos ao direito constitucional: a questão das uniões
homoafetivas
Anselmo Peres Alós e Iva Peres Alós
http://migre.me/5My6f

8. Narrativas orais e (trans)masculinidade: (re)construções da
travestilidade (algumas reflexões iniciais)
Rodrigo Borba
http://migre.me/5My6L

9. Botando corpo e (re)fazendo gêneros
Anne Christine Damásio
http://migre.me/5My7c

10. Desejos, brasilidades e segredos: o negócio do sexo na relação entre
clientela espanhola e travestis brasileiras
Larissa Pelúcio
http://migre.me/5My8X

11. Tecnologias de gênero e as lógicas do aprisionamento
Tânia Pinafi, Lívia Gonsalves Toledo, Cíntia Helena dos Santos e William
Siqueira Peres
http://migre.me/5Myab

12. Gênero e mobilização social: participação feminina na Parada do
Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros
Jaques Gomes de Jesus e Ana Lúcia Galinkin
http://migre.me/5Mybm

13. Os vampiros saem do armário: um olhar antropológico sobre True Blood
Camilo Albuquerque de Braz
http://migre.me/5Myce

14. Bruce LaBruce e a morte depois da morte
Leonardo Davino de Oliveira
http://migre.me/5Myd7

CONTO
Semana Santa
Gerardo Andrés Godoy Fajardo
http://migre.me/5Myeh

RESENHA
SIMON, Rita J.; BROOKS, Alison. Gay and lesbian communities: the world
over. New York: Lexington Books, 2009.
Por Wagner Xavier de Camargo
http://migre.me/5MyeU

* Clique no link abaixo para fazer o download da revista em um único arquivo.
http://migre.me/5Mygz

A importância da pulsão para a análise do corpo nas homossexualidades

Publicação do artigo intitulado “A importância da pulsão para a análise do corpo nas homossexualidades” na Revista Bagoas : Estudos Gays – Gêneros e Sexualidades (V.5, n.6, jan./jun. 2011).

Clique na imagem abaixo para acessar o artigo completo.

Clique aqui para acessar o sítio da Revista Bagoas.

Sobre o falecimento de um querido amigo, o professor Klaus Dieter Karl

Sobre o falecimento de um querido amigo, o professor Klaus Dieter Karl.

Em Natal, há cerca de 12 anos, após um ano de estudos particulares de alemão com o professor Jimmy (Andréas Münz), conhecia o professor Klaus na “Cultura Alemã” (escola de língua alemã), localizada na rua Princesa Isabel. Ambos são professores de alemão, mas Jimmy passaria a residir na Alemanha e, assim, apresentou-me ao seu amigo Klaus para que eu pudesse continuar os meus estudos. A partir desse momento, empreendi um curso intensivo e aprendi mais do que alemão, comecei a tomar o conhecimento vivo da amizade que construímos reciprocamente. Por motivos financeiros, o curso durou pouco, mas continuei a aprender algumas vivências que apenas poderiam ser aprendidas com o “velho Klaus”, como o seu filho Julien e eu gostávamos de chamá-lo em tom jocoso.

Todos sabem que ele era uma pessoa controvertida. Quando chegou em Natal, após viver em São Paulo e em Salvador, ele já havia experimentado de tudo, mas sempre queria algo mais. Participou da vida de Natal, principalmente da cidade velha, da Ribeira e do que é conhecido atualmente por “beco da lama”. Eu o acompanhei por algumas dessas experiências na primeira década do novo milênio. Sei de tantas outras, que acabaram por formar uma pessoa das mais engraçadas. O Klaus possuía muito senso de humor, apesar do jeito sisudo.

Recordo-me de quando fomos em grupo fazer uma caminhada ecológica, de Natal a João Pessoa, em 2003 ou 2004. No meio da caminhada, num final de tarde na Paraíba, deveríamos decidir em parar antes ou depois da “Terra Indígena Potiguara” (Baía da Traição), pois (se me lembro corretamente) não era permitida a permanência ali durante a noite. O sol estava se pondo serena e demoradamente, então resolvemos continuar, mas não esperávamos a terrível tempestade, que escureceu rapidamente o céu, com forte vento e chuva contra nós, faltando quatro quilômetros para chegarmos no fim da reserva e oito na próxima cidade. Foi terrível, mas o Klaus manteve a calma com muito senso de humor.

De repente, algo interrompeu a sua história. O professor Klaus foi encontrado falecido, na madrugada de domingo para segunda-feira (12 de setembro), vítima de um “acidente” com o seu carro. Mas eu não estou convencido de que as consequências do acidente que sofreu seriam suficientes para tirar a sua vida. As peças parecem não se encaixar como deveriam. A impunidade estimulada por quem menos espero (num sentido político), que se vangloria de não ser punido, e a violência atual, aliadas ao desrespeito flagrante de autoridades importantes em relação às instituições, são o que mais me assustam hoje, são a bomba que explode diariamente e ninguém quer ver, mas não são as únicas coisas (ou pessoas) que poderiam ter levado a sua vida.

O professor Klaus incentivou muitos estudantes da UFRN para que prestassem bolsas para estudar na Alemanha. Eu sou um desses. Ele incentivou o cinema alemão na cidade de Natal com as Mostras de Cinema Alemão da Cultura Alemã, no SESC. Ele incentivava as caminhadas ecológicas para recolher o lixo que indivíduos folgados jogam impunemente nas cidades e praias, pensando que são os seus quintais. Quem conheceu o Klaus sabe que, apesar da razão e da desrazão lutarem entre si no seu modo de viver, ele defendia a cidade, criticando sem medo principalmente à política local para as regiões do centro antigo de Natal. Ele desejava uma Ribeira revitalizada. A sua casa, na Princesa Isabel, a Cultura Alemã, era um centro de encontros, de brindes à vida, de amizade. Deixou muitos amigos. São muitos os que ligam hoje para a Cultura Alemã, reconhecendo o valor do Klaus em suas vidas.

Por isso tudo, o professor Klaus merece ficar na memória da cidade.

Por favor, divulgue essa mensagem, obrigado.

Augusto César Francisco

Ex-aluno do professor Klaus na Cultura Alemã
Graduação em Ciências Sociais (UFRN)
Mestrado em Ciências Sociais (UFRN)
Doutorando em Sociologia pela UNESP, com estágio
na Universidade de Bonn / Alemanha
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Doutorando brasileiro na Konferenz zu Schreber – “Conferência sobre Daniel Paul Schreber: a experiência moderna e a performance da paranóia”

O Blog do Centro de Humanidades Médicas da Universidade de Durham (Inglaterra) divulgou a realização da Conferência sobre Daniel Paul Schreber (1842-1911) na cidade de Pirna (Alemanha), perto de Dresden, no Castelo Sonnenstein, entre os dias 13 e 15 de abril de 2011.

O que significa o Castelo Sonnenstein, inaugurado em 1811, pode ser conferido na Wikipédia.

Schreber esteve internado por anos a fio num Hospital Psiquiátrico que ficava em Sonnenstein.

Por que estudar o que representa Daniel Paul Schreber para a ciência? Porque ele é um caso paradigmático para a psicanálise e, desde então, para uma gama de campos de estudos culturais, tais como os estudos judaicos e os estudos queer.

Estiveram na conferência os principais nomes que pensam Schreber: Friedrich Kittler, Eric Santner e Zvi Lothane (considerado atualmente a autoridade máxima nesse campo). Esteve também o autor deste Blog, Augusto César Francisco, representante brasileiro e da UNESP (doutorando), graças à bolsa de Doutorado Sanduíche da Capes. A sua pesquisa tem como hipótese que a relação entre o real e a realidade social – relação esta proposta pela teoria da construção crítica, de Alípio de Sousa / UFRN – desempenhou um papel importante para a luta por reconhecimento de Daniel Paul Schreber no âmbito da produção autobiográfica. O modelo de análise de autobiografia é pensado a partir do artigo de Wiebke Lohfeld / Universidade de Mainz.

O Blog do Centro de Humanidades Médicas, por meio da expositora Angela Woods, divulgou os seguintes comentários e a foto:

“I was lucky enough to attend an extraordinary conference over the break entitled: ‘Daniel Paul Schreber centenary – 200 years of Sonnenstein: The Modern Experience and the Performance of Paranoia.’ The full report appears here on H-Madness, the history of psychiatry blog. Here are some additional photos [com créditos para Anton Pluschke e Angela Woods]:

Participants in the Schreber Conference, April 15 2011. Photo: Anton Pluschke”

Para os interessados no conteúdo da Conferência sobre Schreber, conferir no Blog H-Madnes, em artigo de Ângela Woods.

„Als sie die Blogger holten, habe ich geschwiegen, ich war ja kein Blogger”

Klaus Hart berichtet:

“Attentat auf brasilianischen Systemkritiker Ricardo Gama in Rio de Janeiro/Copacabana. Anwalt von zwei Kopfschüssen getroffen. ‘Blogger, der Politiker kritisiert, erleidet Attentat’ (O Globo). Wer ist der nächste?”

Was ist mit Brasilien los?

Martin Niemöller:

„Als die Nazis die Kommunisten holten,

habe ich geschwiegen,

ich war ja kein Kommunist.

Als sie die Sozialdemokraten einsperrten,

habe ich geschwiegen,

ich war ja kein Sozialdemokrat.

Als sie die Gewerkschafter holten,

habe ich geschwiegen,

ich war ja kein Gewerkschafter.

Als sie mich holten,

gab es keinen mehr,

der protestieren konnte“.

Veja a charge de Clovis Lima no http://twitpic.com/4dmoao:

Para uma definição de corrupção

Para uma definição muito boa de corrupção, segue trechos do texto “A corrupção: como defini-la?”, do Prof. Jorge Barrientos-Parra, da UNESP.

Para o autor:

“[A] corrupção é a livre adesão a condutas que violem normas éticas e/ou jurídicas visando um benefício indevido para si ou para outrem”

Ou

“Quanto à corrupção na Administração Pública: é a livre adesão do servidor público ou do particular que se relaciona com a Administração Pública a condutas que violam as normas éticas e/ou jurídicas e/ou os princípios da Administração Pública, visando um benefício indevido para si ou para outrem.”

Para ler o texto completo, clique aqui (Página da Reitoria da UNESP).

100 Jahre ohne Daniel Paul Schreber

Ich heiße Augusto César Francisco, bin Sozialwissenschaftler von Beruf, mit einer Ausbildung an der UFRN und Unesp. Ich studiere Psychoanalyse und eine sogenannte Sozio-Anthropologie, hauptsächlich die den Begriff „Über-Ich“ analysiert.

Mein Thema heute ist Daniel Paul Schreber und seine Autobiographie „Denkwürdigkeiten eines Krankennerven“, im Jahre 1903 veröffentlicht. Er ist 1842 geboren und 1911 gestorben. Das heißt, dass Schreber in diesem Jahr seinen hundertsten Todestag hat, genauer gesagt am 14.04.2011. Während seines Lebens machte er eine Ausbildung als Jurist und schrieb seine Autobiographie. Diese Autobiographie war die Konsequenz eines 10-jährigen Aufenthalts im Krankenhaus Sonnenstein, in Pirna, in der Nähe von Dresden.

Daniel Paul ist berühmt als Sohns Daniel Gottlob Moritz Schreber (1808-1861) und als Fall von Sigmund Freud (1856-1939). Sein Vater war ein Arzt, der ein Modell für Hygiene entwarf. Dieses, wie alle Modellen bis heutzutage, hatte eine moralische Bedeutung. Sein Name ist heute noch in den Schrebergärten präsent.

Daniel Paul Schreber war auch ein Fall von Freud, als dieser das Buch „Psychoanalytische Bemerkungen über einen autobiografischer beschriebenen Fall von Paranoia“ im Jahr 1911 veröffentlichte. Später wurde die Autobiographie von Schreber auch durch den Psychoanalytiker Jacques Lacan analysiert. In der letzten Zeit ist Schreber von Interesse für die sogenannten „cultural studies“, insbesondere die „gender studies“.

Auf dem Höhepunkt seiner Karriere als Senatspräsident am Oberlandesgericht Dresden wurde Schreber im Sonnenstein eingeliefert (1894), weil er sich in einer psychotischen Krise befand. Kurz gesagt, Schreber dachte, dass er von Gott befruchtet und dadurch eine neue Rasse begründet worden sei. Er sei deswegen entmannt worden. Seine Entmannung sei wie ein Wunder erfolgt, ein Prozess, den er folgendermaßen erklärte:

„Die Entmannung ging in der Weise vor sich, dass die (äußeren) männlichen Geschlechtswerkzeuge (Hodensack und männliches Glied) in den Leib zurückgezogen wurden und unter gleichzeitiger Umgestaltung der inneren Geschlechtswerkzeuge in die entsprechenden weiblichen Geschlechtsorgane verwandelt wurden, sie geschah vielleicht in mehrhundertjährigem Schlaf, da doch auch eine Veränderung des Knochenbaus (Becken u. s. w.) hinzukommen musste.“ (39).

Diese Rede stellt heute eine Literatur dar, die viele Vorurteile und moralische Richtungen erklärt. Ein Beispiel ist die Assoziation zwischen seiner Autobiographie und dem Deutschland vor dem Nationalsozialismus. Ein anders zeigt seine weibliche Erfahrung. Die Wichtigkeit seiner Erzählung dauert bis heutzutage an. Am 13. April 2011 findet eine Konferenz im Sonnenstein statt, an der die wichtigsten Forscher über Schreber teilnehmen werden: Eric Santner, Friedrich Kittler und Zvi Lothane.

Link der Konferenz: http://www.iversity.org/events/1754/overview

Mein Interesse an Schreber gilt seiner Erfahrung, die uns zeigen kann, wie die Identifikationen mit den sozialen Geschlechtern (maskulin oder feminin) entstehen. Im Fall von Schreber spielt es auch der Kampf um Anerkennung eine Rolle, wie der Verfasser Axel Honneth erklärt. Die Beziehungen zwischen Menschen sind an einen moralischen Kampf gebunden. Schreber wollte eine Frau werden und das ist das Grund für seinen Kampf in der sozialen Welt. Er kämpfe darum in seiner Autobiographie, in der er Begriffe seiner wissenschaftlichen Zeit benutzte. Er versuchte seinem möglichen Leserpartner zu sagen, dass er eigentlich auch eine Frau war. Damit stellte er einen Wegbereiter für den noch heute andauernden Kampf um Anerkennung von Tausenden von LGBT Menschen dar.

Meinen Vortrag beende ich mit einem Zitat von Schreber:

„Der Erkenntnisse, dass, was es auch immer mit meinen ‘Wahnideen’ für eine Bewandtnis haben möge, man in mir jedenfalls nicht einen Geisteskranken von gewöhnlichem Schlage vor sich habe, werden auch andere Menschen auf die Dauer sich nicht entziehen können.“ (213).

AMANDA SIMPSON: UMA TRANSEXUAL NO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS

Segundo a Folha OnLine, uma transexual passa a ocupar um importante cargo no governo dos Estados Unidos. É a bela Amanda Simpson, que, há cerca de uma década, decidiu realizar a mudança de sexo. É importante notar o preconceito dos comentadores em uma série de artigos da imprensa on-line – basta fazer um “google” com o nome da corajosa transexual – e, o pior, sempre a tratam como “ele”, não respeitando a sua escolha por ser “ela”.

Devemos ter claro que “não somos (héteros, homos ou trans) obras da natureza biofisiopsicológica ou obras da divina providência, mas agentes de escolhas nas quais estamos ética e politicamente implicados e pelo próprio usufruto de nossa liberdade – pela qual, igualmente, podemos nos oferecer um estilo de vida, modos de ser, refundar-nos, recriando-nos”, como colocou o prof. Alípio de Sousa, na quarta edição da revista acadêmica de estudos gays, lésbicos e trans, a Bagoas – para ler o artigo completo, clique aqui.

Fonte da foto de Amanda Simpson: Folha OnLine

A lógica utilitarista do saber e suas consequências

Crise nos pensamentos e nas atitudes de esquerda, hipocrisia generalizada, cinismo, status quo, “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, violência simbólica como paradigma das relações atuais, gozo com a crueldade acadêmica sem limites, “teatro dos assassinatos anônimos”, esses são alguns dos nossos singelos modos ter uma “vida boa” no ambiente universitário. Estamos certos de que esses modelos estão falidos e em breve, em poucos anos, os que cultivaram o espírito da Universidade, isto é, as ações de revolta contra a lógica utilitarista do saber, essas pessoas sairão fortalecidas em suas formações humanas. O importante é não desanimar!

Utilitarista significa aqui: a utilização do saber para a crua prática da política.

O DESENCANTAMENTO DO SABER ESCOLAR

Blog Tesoura Social

“Quando olho boa parte de minha geração de amigos que compartilharam comigo a vida acadêmica, fico bastante desanimado com os desdobramentos que se apresentam no meu horizonte de futuro profissional. Muita entrega emocional, sonhos não realizados, muita frustração acumulada e bastante ressentimento, este último, justo em alguns casos exemplares.
É estranho ver colegas com grande competência cientifica não encontrarem hoje as condições favoráveis de realização das mesmas. Isso porque parece cada vez mais evidente a sobreposição da política mobilizada do campo em detrimento da lógica normativa do campo. Dessa maneira, os estudantes que seguem adiante sua trajetória acadêmica são os que melhor se ajustam aos jogos de poder e cinismo acadêmico. Muitas vezes, pouco compromissados com o espírito cientifico, mas completamente entregues às lutas políticas de seus mestres ou “padrinhos” por posições estratégicas na arquitetura de poder dos cursos de ensino superior.
Por sua vez, no que se refere aos estudantes com inclinações verdadeiramente cientificas, resta-lhes a depressão, o sentimento de mal-estar, o surto e a deriva social. Há algo de errado nisso tudo, pois assim como meus colegas, eu acreditava que a paixão incondicional pelo saber era uma virtude que se traduzia em ganho, se não material, pelo menos em termos de segurança ontológica. Eis que me sinto atualmente ludibriado com meus sonhos e ilusões acadêmicas. A paixão pelo saber continua forte e pulsante, mas a crença na legitimidade das instituições responsáveis pela formação intelectual, desabou como um castelo de cartas. Cartas marcadas, claro!”

Clique aqui para acessar o conteúdo no Blog Tesoura Social

Política e Cinismo

ALIANÇAS: A QUE SERVEM?

Alípio de Sousa Filho
– professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN

“Na história brasileira, as curiosas alianças políticas da esquerda com a direita já não são uma novidade. Se antes era possível observar os efeitos perversos dessas alianças, hoje, esses efeitos têm aumentado. Seja nos períodos que antecedem eleições nacionais ou locais, seja nas composições após as eleições, a formação de alianças políticas toma – cada vez mais – a feição do cinismo e da canalhice moral, tornando-se verdadeiros casos de assalto à consciência ética pública. Partidos e políticos que, ontem, atacavam-se em praça pública abraçam-se e trocam elogios hoje. Inimigos declarados tornam-se bons aliados da noite para o dia. Como se não fosse o bastante, ainda ferem o conceito de amizade: declaram-se “amigos”, falam de “laços de amizade”, etc.

“Mas é certo que não enganam ninguém. Mesmo as massas, em toda sua alienação, mas possuidoras de um senso trágico – com o qual, sabendo que não têm forças para vencer o cinismo reinante, fingem acreditar nas mentiras que ouvem para viver melhor a vida –, sabem reconhecer que não há amizade entre aqueles que disputam posições de poder. As massas sabem que eles “não se entre-amam, eles se entre-temem” (La Boétie). Realizadas sob o pretexto de pactos em prol de “melhores dias para o povo”, do “desenvolvimento social”, do “avanço da democracia” e outras (falsas) razões, as alianças tornaram-se ocasiões em que tanto a direita como a esquerda procuram tirar proveito, cada uma à sua maneira, do espetáculo (vazio) em que a política foi convertida pela ação desses próprios atores. Pior para a esquerda. Pior para a política.”

Para continuar a ler, por favor, clique aqui.

Fonte da Foto: www.estrategiaeanalise.com.br

Não homofobia!

Participe da campanha pela aprovação do Projeto de Lei – PLC 122 – que torna crime a homofobia no Brasil, divulgando o site Não Homofobia. Precisamos de voluntários/as para fazer uma grande onda viral na internet, principalmente no orkut.

1- Encaminhe para 10 amigos o site Não Homofobia e peça para que eles assinam o abaixo-assinado e divulguem para mais 10 amigos pedindo o mesmo;

2- No site existem 3 passos básicos super fáceis de realizar:

I- Preencha seu nome, email e RG ou CPF. O registro dessas informações será utilizado para comprovar e divulgar aos senadores o número de pessoas que são favoráveis a lei. Questão: Ahh mas eu não me sinto seguro em colocar meus dados de identidade… Resposta: O site possui um certificado de segurança, igual aos sites de bancos ou de compras na internet. O dados fornecidos são criptografados, evitando assim qualquer tipo de desvio das informações pessoais para outros fins que não sejam da campanha. Lembramos que um abaixo-assinado para ter valor real e jurídico precisa constar o registro de identidade da pessoa. Senão seria muito fácil, era só inventar um monte de nomes e e-mails e mandar;

II- Digite seu e-mail e depois do OK, acesse sua caixa de entrada de e-mail. Lá você encontrará uma mensagem enviada a partir do site. Basta clicar em “Responder para todos” (ou “Reply to All”) e os endereços dos 81 parlamentares que compõem o Senado Federal estarão no campo de destinatário, pronto para enviar o seu desejo pela aprovação da lei que criminaliza a homofobia no Brasil;

III- Multiplique as adesões. Indique para seus amigos/as!! Coloque o nome e e-mails deles/as e mande um convite para que eles/as também assinem o abaixo-assinado;

3- Crie comunidades no orkut e blogs para divulgar a campanha;

4- Poste comentários em Fóruns de comunidades que combatam a homofobia ou que sejam contra o preconceito divulgando o site Não Homofobia;

5- Seja criativo/a. Quaisquer idéias novas são super bem-vindas. Vamos colocar a mão na massa e trabalhar pela aprovação do PLC 122/06 e tornar crime a homofobia no Brasil.

Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT – Coordenação da Campanha Não Homofobia.

PARTICIPE – ACESSE – VOTE
Não Homofobia

Coordenador Geral – Cláudio Nascimento
Coordenador Técnico – Júlio Moreira – (21) 9318-0047
Assistente – Verônica Bairral (21) 8847.6926

GRUPO ARCO-ÍRIS
RUA MONTE ALEGRE, 167 – SANTA TERESA – RJ
TEL. (21) 2222.7286 / (21) 2215-0844

Dia das mães: o amor materno e a domideologia

Entrevista concedida à jornalista Caroline Passos, para o Jornal de Santa Catarina (Blumenau), no dia 05 de maio de 2007 (publicada no dia 12 de maio de 2007). Para baixar o arquivo da entrevista, clique na figura.

O amor não é fogo: é ideologia

II Conferência Internacional do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra

cladin

TEMA: Áfricas: saberes, desenvolvimento e nações republicanas no século XXI.

Após ler atentamente todas as ponderações e sobretudo rever os temas sugeridos pelos participantes da I Conferência Internacional do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (I CONCLADIN), realizada em 2007, a comissão organizadora da II CONCLADIN, que ocorrerá nos dias 19, 20 e 21 de maio de 2009 na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Araraquara, escolheu para este ano o tema: ÁFRICAS: saberes, desenvolvimento e nações republicanas no século XXI. A conferência abrigará também o I Colóquio Internacional do NUPE e a I Reunião Científica do LEAD da Faculdade de Ciências e Letras – Campus de Araraquara – UNESP. Além disso, contaremos com os mini-cursos e as conversas temáticas Chá, café e chocolate, presentes na programação.

Nessa II CONCLADIN queremos trazer estudiosos e intelectuais de nações africanas, mas também de outros países. Buscaremos nessa Conferência estabelecer contato com pesquisadores e agentes sociais que trabalham em diversas partes do mundo e que possam refletir sobre o sentido das Repúblicas, das lutas por mais cidadania e pelo desenvolvimento, sobretudo no momento em que o Brasil completa 120 anos de sua proclamação da República, mas ainda mantém, sob diversos aspectos, a mentalidade escravista e a estrutura de mando e obediência do período colonial-imperial brasileiro.

Nessa II CONCLADIN debateremos com estudiosos e intelectuais de diversas nações africanas, bem como também teremos a oportunidade de conversar com pensadores de países de fora da África, além de podermos contar com um leque enorme de estudiosos nacionais.

Informações: Portal Áfricas

Como está a nossa Universidade?

O IDEAL DE UNIVERSIDADE E DE SUA MISSÃO

Alípio de Sousa Filho – Professor da UFRN, Doutor em Sociologia pela Sorbonne

Desde seu surgimento – nos séculos XII e XIII –, as universidades têm sido acusadas de indiferentes às necessidades da sociedade, de serem centros de erudição monástica, lugar de diletantes, entre outras coisas. Tais acusações despertaram, no dizer de Kenneth Minogue, uma verdadeira “tradição de ataque à universidade”. Com o autor, podemos dizer que a história da universidade é a de uma instituição incompreendida, em torno da qual sempre esteve a idéia da necessidade de reformas. “Reformar a universidade” é idéia que coincide com a própria história da universidade nos diversos países.

(…)

Os ataques dirigidos contra as universidades (notadamente as públicas), há anos, seja na forma das acusações dirigidas a ela por agentes econômicos, seja na avaliação feita por dirigentes políticos, autoridades públicas, constituem, como dissemos, a forma de um cerco a que essas instituições sempre estiveram submetidas na história. Um cerco que tem na doutrina da necessidade de “adaptação da universidade à sociedade” um de seus pilares principais, sempre acionada por meio de eufemismos que procuram esconder a exigência de que a universidade se abra a interesses estranhos ao conhecimento teórico desinteressado – que deve ser seu único fim: conhecimento da realidade humana, histórica, social, conhecimento da natureza, sem fins práticos predeterminados por interesses que não sejam os do próprio conhecer ou definidos por demandas sociais que sejam de interesse da maioria social ou que representem contribuição ao desenvolvimento social, à emancipação humana, à democracia, aos direitos humanos universais.

(…)

A universidade precisa manter-se livre das pressões sociais – e mesmo também da pressão dos setores populares – porque, se fizer concessões ao pragmatismo, rebaixará suas tarefas a situações conjunturais, a demandas específicas, correndo o risco de se desfigurar a longo prazo. É sabido que essa visão é recusada por homens de negócio, por militantes das chamadas causas sociais, e por dirigentes políticos, que gostariam de ver a universidade servindo a imediatismos, mas é preciso que os universitários resistam como aqueles que são os únicos que podem sustentar o ideal de universidade. Citarei K. Jaspers mais uma vez: “Se a universidade baixa de nível, a sociedade e o Estado naufragam com ela.”

(…)

Desse modo, a missão da universidade, quanto a si própria e à sociedade, é tornar-se o lugar da formação de uma elite intelectual, cultural e científica. Esta não é uma elite de classe, mas uma elite de espírito. Nem por isso elitista e diletante. O sentido de ser elite aqui é apenas o do elevado grau de compreensão da realidade que passam a ter todos aqueles que se beneficiam da educação no modo teórico-filosófico-científico de pensar, que as universidades são lugares em que se deve praticar sem descanso, e que a sociedade deve procurar alargar o acesso a tantos mais quanto seja possível. Um alargamento que não pode ser acompanhado do rebaixamento do nível de ensino e do rigor para com as coisas da ciência. A estrita autodisciplina a cumprir para os deveres da atividade científica de produção do conhecimento exige uma educação que não suporta o baixo nível que, em geral, se vem admitindo com a massificação do ensino superior.

(…)

Como vivemos em sociedades divididas em interesses, a missão da universidade define-se com relação a esses interesses e ao conflito destes. Se pensarmos o caso da universidade pública, uma clara opção se torna necessária: mantida com recursos públicos, ela somente pode se destinar àqueles interesses que realizem interesses públicos, coletivos, o interesse geral, o bem comum. Isso não deve significar “universidade dos pobres”, “universidade dos trabalhadores”, “universidade popular”. Essa idéia é um atentado ao conceito de universidade. Na universidade, o conflito de interesses não é luta de classes, nem o conflito de interesses tem sua solução na opção demagógica por classes.

(…)

A sociedade deve saber que a universidade não pode ser populista em seus princípios. O populismo e a demagogia podem levar a universidade à sua falência total. Dirigentes, professores, funcionários e estudantes universitários não podem ser demagógicos em suas visões da universidade. Assim, certos modelos de avaliação e propostas de reforma de currículos, métodos de ensino, duração dos cursos, níveis de exigência, etc., sob o pretexto de tornar a formação universitária mais flexível, adaptada aos tempos, produtiva, útil, colocam em risco a universidade, a educação superior, a produção do conhecimento teórico, a ciência.

(…)

[Texto completo na página do professor Alípio de Sousa]

Ser negro no Brasil hoje – texto de Milton Santos

SER NEGRO NO BRASIL HOJE
Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro

Milton Santos

Há uma freqüente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador.  Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas.  Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas).  Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.

500 anos de culpa

Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica!  O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a freqüentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política conseqüente.  Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se próxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária,  sua catarse anual?

Hipocrisia permanente

No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo.  Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é?  Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é freqüentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambigüidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.

Marcas visíveis

Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.

Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é freqüente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.

A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.

Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro - imagem fácil - e não as minhas aquisições  intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambigüidade a que já nos referimos, cuja primeira conseqüência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.

Olhar enviesado

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel freqüentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em “faits-divers”, em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.

Ser negro no Brasil é, pois, com freqüência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranqüilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver “subido na vida”.

Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a  sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente  brasileiro no Brasil.

Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Fonte: Folha de S.Paulo – Mais – Brasil 501 d.c. – 07 de maio de 2000

Fonte: Antroposmoderno

O afresco “A criação de Adão”, da autoria do artista renascentista Michelangelo Buonarroti, à luz do pensamento de Judith Butler.

A CRIAÇÃO DE ADÃO E A PERFORMATIVIDADE DOMIDEOLÓGICA DE AMOR

Augusto César Francisco

Nossa problemática da crítica da domideologia do amor relacionado ao sexo/gênero e à geração está desenhada em A criação de Adão, do pintor Michelangelo Buonarroti, um afresco pintado no teto da Capela Sistina por volta de 1511. Nesse afresco, que simboliza o momento da criação de Adão por Deus na narrativa bíblica do Gênesis, Deus aparece sustentado por anjos e uma figura feminina, que está sendo abraçada por Ele, com o braço esquerdo. Com o braço direito esticado e com o indicador apontado para o indicador da mão esquerda do braço esticado de Adão, Deus cria Adão. Este está semideitado sobre uma grande pedra com relvas, com o braço direito apoiado sobre ela, e o braço esquerdo esticado, com o dedo indicador passivamente na iminência do toque de Deus. Deus é apresentado como um ancião, vestido com um manto, enquanto Adão é um jovem nu.

O que chama a atenção imediatamente é que, embora Deus e Adão estejam no mesmo plano, numa simetria, Deus surge de um espaço interior e Adão de um espaço exterior. Deus surge de uma abertura cheia de seres compostos de maneira aleatória, segurando-o, alguns seres acabados, outros inacabados, alguns com a forma humana, outros com a forma inumana. Esses seres parecem perder-se dentro do vão, alguns apresentando somente uma silhueta; quanto mais fundo, menos têm a forma humana. Adão está perfeitamente acabado, sobre uma superfície, apresentando uma integridade humana. Se formularmos que esse ato, a criação de Adão, é uma lei, cujo poder é a própria criação, estaremos diante do que essa lei, por antecipação, ratifica. Adão, mesmo sem ter sido criado, já apresenta movimento em direção a Deus, e a figura feminina, supostamente Eva, já foi criada antes do ato de criação. Deus não surge senão de um vão, de onde a profundidade apaga as fisionomias humanas. O efeito de profundidade e superfície – profundidade em relação a Deus, e superfície em relação a Adão – é um efeito de poder, quando Deus cria Adão semelhante à sua imagem, mas não se sabe de onde veio a imagem de Deus. Se interpretarmos como um processo, esse ato nos revela que atrás de Deus estão figuras humanas que se tornam cada vez mais inumanas à medida que estão ao fundo do vão, sendo que, por meio da lei da criação, Adão é apresentado completo e perfeito, mas com um efeito de superfície. O processo nos revela que para Adão levantar o braço, ele já tinha sido criado anteriormente, assim como a figura feminina (supostamente Eva), que apóia Deus (sem ter sido criada). Se pensarmos no que representa, não podemos tirar a atenção de que se trata de um ancião e de um jovem, ambos masculinos. Se pensarmos em efeitos temporais dessa lei, podemos imaginar um vão profundo com um mundo inominado que se abre concomitantemente à figuração de Deus, masculino, culminando na suposta aparição de Adão, cuja imagem é semelhante a Deus. Posteriormente, Deus sumiria dentro desse vão, se o movimento temporal continuasse.

A pintura nos mostra que a lei tem um efeito material de superfície sem deixar de pressupor o antes do ato ratificado no depois do ato, como as formas vão se tornando humanas culminando em Deus e em sua autocriação na figura de Adão. O antes, contudo, é escondido, porque está perdido dentro do vão (a dominação está perdida na representação!) – mas pressupõe formas humanas. A pressuposição também coloca um Deus como pai e um adão como filho, ambos masculinos. Aqui, a lei é o efeito masculino por meio do princípio falogocêntrico. Se transgredirmos as normas temporais e espaciais, percebemos que Adão se torna Adão (vimos que ele já tinha sido criado antes de Deus criá-lo) identificando-se com Deus – Adão vai ao alcance de Deus, mesmo não tendo sido criado. Podemos dizer que Adão foi interpelado por Deus, por essa identidade ontológica que pressupõe a figura masculina, acabada, coerente e fixa. Nesse tempo mítico, Adão é coagido a tornar-se Deus. A lei da criação de Adão deixa essa imposição de identidade flutuante, porquanto há um efeito de superfície sim, mas não sem o “risco” dessa superfície se transformar em outras coisas de Deus, no antes inumano do ato, inclusive de se transformar na figura feminina. O ato em si não quer dizer nada, mas as pressuposições do ato, a maneira pré-discursiva das figuras que apóiam Deus, e a imposição pré-social da lei masculina da criação nos dizem muito.

Se acrescentarmos o amor no ato de criação de Adão por Deus, a pintura se torna ainda mais interessante. Se Deus cria Adão por amor, esse amor é de um homem para um homem e de um pai para um filho, colocados antecipadamente à criação, e tirando todas as outras possibilidades de amor ter surgido com um outro plano divino. Se levarmos às últimas conseqüências, Adão se identifica com o amor domideológico de Deus (amor paterno de pai para filho), numa exclusão abjeta do feminino (da filha?) que se encontra ao lado de Deus, e de todas as outras possibilidades inumanas que O acompanham. A imposição reiterada a Adão é que ele se torne antes homem e filho, diante de um Deus que toma a lei para si e se faz crer como masculino e paterno. Ao tomar a lei de amor como masculino e paterno, ele pressupõe que antes da criação era tudo esse amor, ratificando esses elementos pré-discursivos nos efeitos da lei. A coerência e a fixidez não funcionam sem colocar os efeitos materiais de superfície na criação, enquanto a identidade da criação corre o risco subversivo de afundar no buraco. O que vemos são efeitos da lei, expressões tidas como resultado. O sexo/gênero, a geração e o amor são efeitos (nota 1), pressuposições que perdem a sustentação quando a lei se mostra levando-as consigo desde um tempo mítico até a ratificação. A criação é um toque de um Deus ativo para um Adão que surge passivo, é um gesto de geração de um pai para seu filho, de um homem para outro, e de amor. O que vem de dentro é a dominação desse discurso, cujos efeitos são repetitivos: o que vem de dentro é o “Pai”, é “Masculino”, é “Deus”, e são todos os seres que O sustentam. O fundo real do simbólico é a dominação desse simbólico não na figura de Deus, nem no cenário desse teatro fantástico, senão no próprio encenar, na performatividade que isso representa, da repetição constante desse discurso, na coação a representar e teorizar conforme manda o figurino, “Deus” na pele de “Deus”, “Adão” na pele de “Adão”, repetidas vezes, em direção ao eterno retorno.

Nota 1: “Nesse sentido, o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra. No desafio de repensar as categorias do gênero fora da metafísica da substância, é mister considerar a relevância da afirmação de Nietzsche, em A genealogia da moral, de que ‘não há ‘se’ por trás do fazer, do realizar e do tornar-se; o fazedor é uma mera ficção acrescentada à obra – a obra é tudo’. Numa aplicação que o próprio Nietzsche não teria antecipado ou aprovado, nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero por trás das expressões de gênero; essa identidade é performativamente constituída, pelas próprias ‘expressões’ tidas como seus resultados” (Judith BUTLER, Problemas de gênero, 1999, p. 48). Poderíamos também dizer que não existe identidade de amor “por trás” das expressões de amor – a identidade de amor que possivelmente é o fundamento da criação, o motivo divino principal, é um efeito performativo da criação; os efeitos do amor que trazem uma aparência de identidade: dos homens que amam.

Aniversário de seis meses do nosso livro “O amor em mal-estar”

No dia 15 de maio deste ano (2008), lançamos o nosso livro O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia na Casa das Rosas da cidade de São Paulo, um dos lugares mais bonitos para realizar uma cerimônia de lançamento. Eis a nossa fala na cerimônia:

Não é mero acaso o que conquistamos. Contamos com a colaboração de muitas pessoas, principalmente os nossos amigos, familiares e professores.

Nossos agradecimentos para:

A Casa das Rosas, a Associação Paulista dos Amigos da Arte e as maravilhosas pessoas que as mantém com o trabalho poético empolgante. A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo, que são responsáveis pela iniciativa da Casa das Rosas.

Postal Verso

A UFRN e o CNPq, instituições que receberam e financiaram a pesquisa. O DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) pela bolsa Winterkurs, que me ajudou no alemão de Freud e permitiu visitas nos museus de Freud em Viena e em Londres.

A Booklink Publicações e o Editor Glauco de Oliveira, que ajudam os escritores que não querem se submeter a um mercado editorial desumano. Não era Voltaire que publicava os seus próprios livros (como muitos franceses da época)? Seriam aceitos em uma Editora Só Quero Dinheiro? Vejam (e contribuam com) a Coleção Diversidade da Booklink, organizada pelo teórico Solimar Oliveira Lima (Homossexualidades sem fronteiras 1 e 2, e Aids e seus desnudamentos)

Postal FrenteO Francisco Santinho, que foi o diagramador e artista do trabalho da capa e de toda a divulgação do lançamento. O Chico, como o chamamos carinhosamente, é um amigo e brilhante artista, produzindo as mais belas peças gráficas com uma sensibilidade inesgotável. É claro, ele faz também por prazer. Quem estiver interessad@ (interessada ou interessado, por isso o “@”) em capas de livros e outras artes, pode entrar em contato conosco pelo e-mail domideologia@gmail.com, que o repassamos para o Chico. O desenho com o qual o Chico trabalhou se chama Les amants (Os amantes), de autoria do Alberto Lamback, artista plástico de grande talento formado na escola francesa e estudando agora em Londres, e um amigo que acolheu o Augusto quando estava precisando.

A Cláudia da Costa Melo, revisora de português e uma amiga que também nos acolheu quando precisávamos. Se houver interessados em revisão, por favor, envie-nos um e-mail.

O professor Alípio de Sousa Filho – um brilhante teórico contemporâneo que pensa à luz do ano 68 na prática –, que sempre incentivou a produção autônoma e independente, e a professora Lore Fortes, excelente pesquisadora e uma amiga querida – ela me deu uma moedinha para dar sorte em uma viagem que fiz; essa moeda me ajuda até hoje, pois é uma significante parte da minha sorte e felicidade.

A professora Sônia Maluf, pelas excelentes aulas sobre o feminismo e sobre Judith Butler, que é uma referência importante da nossa pesquisa, e a professora Maria do Socorro de Oliveira, pela leitura e contribuição com a pesquisa; ainda, a professora Viviane Herbele, pela generosidade de ceder algumas referências para xerox, principalmente de Bourdieu.

Arlete Prade (mãe do Augusto), pela leitura do texto da dissertação, que virou livro. Obrigad@, querida.

Ana e seu companheiro Jack (irmã e cunhado do Augusto), que sempre nos acolhe para o que precisamos. Aos nossos familiares queridos, que são uns fofos e nos ajudam a crescer.

A Rosa Maria de Oliveira, uma amiga querida que enviou muitos textos. Ela está concluindo uma pesquisa belíssima, uma excelente contribuição para a ciência humana. Em breve, ela divulgará a sua pesquisa, a qual estamos ansiosos por ler.

A Nadja Paiva, pela sua ajuda com as referências de Freud.

O Bruno Merini, pela compra de livros lá dos EUA, que na época nem sabíamos como comprar.

As jornalistas Jô Laps e Carol Passos pelo incentivo.

A tod@s (todas e todos) que contribuíram indiretamente para a realização da nossa pesquisa, nossos profundos agradecimentos.

Sem vocês tod@s, não seria possível realizá-la e muito menos continuar vivendo.

Convite Eletrônico

Quem desejar ler outras informações sobre a nossa pesquisa, pode clicar no Aniversário de um ano da defesa de “O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia”.

Um homem está grávido pela segunda vez e terá mais uma criança!

Foi noticiado hoje pela ABC (Barbara Walters Exclusive: Pregnant Man Expecting Second Child) que Thomas Beatie dará à luz uma segunda criança. Vejam o vídeo:

Trouxemos a reflexão sobre o fato que desestabiliza a “ordem do amor materno”, embora isso reforce paradoxalmente a “ordem da família”. Beatie será pai novamente, um pai grávido: “Eu usei meus órgãos reprodutivos femininos para tornar-me um pai”, diz ele. Veja aqui o nosso artigo anterior: Um homem estava grávido e deu à luz um filho. Há muita gente revoltada com Beatie: pessoas homofóbicas e misóginas, que não admitem que as suas crenças possam ser contestadas por outros fatos culturais. A verdade é que o real está “invadindo” a realidade, como diria o teórico Alípio de Sousa; e essa expansão da realidade social é contrariada pela ameaça da domideologia, que nos diz que as coisas sociais são naturais, divinas, eternas e universais. Pois aí está o fato que balança com a religião e com a moral (é, Presidente Lula e Papa Ratzinger, não adianta vocês virem com acordos religiosos – veja em globo.com! Enquanto vocês aderem ao conservadorismo, a dialética social mostra a sua cara. Não esqueçamos que o Vaticano é contra o uso de meios de contracepção e contra o casamento de parceiros do mesmo sexo – Thomas Beatie deve ser o Satanás para essa gente! Mas quem mesmo vendeu a alma para o diabo? – É, senhores, a República não se esquecerá)…

Um homem estava grávido e teve um filho!

Augusto César Francisco

A imprensa mundial (Times1, Times2, Globo…) noticiou neste o ano o fato de Thomas Beatie (34 anos) estar grávido e de ter dado à luz uma criança nos EUA. Beatie nasceu uma “mulher” chamada Tracy Longodino e trocou legalmente de sexo, tendo se casado com Nancy, que não pode ter filhos devido à sua histerectomia (a remoção do útero por meio de cirurgia). Como tinham o desejo de ter filhos, Beatie, que apesar de ser legalmente “homem” tem os órgãos femininos capazes de gerar filhos, se responsabilizou por engravidar. Esse fato abre um precedente para a crítica da domideologia de amor, pois desarticula a ficção dominante de que o amor materno é o principal veículo entre a sociedade e o novo serzinho (que vem surgindo). Não é mais o amor materno que está em jogo; aqui, evidencia-se no discurso o “amor paterno”, com a justificativa de que “ter uma criança biológica não é nem um desejo masculino e nem feminino, mas um desejo humano”, segundo Beatie. A partir desse momento, o homem pode dar à luz, portanto.

O amor materno criticado nas ciências humanas do século XX e XXI pode desligar-se do gênero, finalmente, mas ainda não se desligou do “desejo humano”. Acreditamos que é muito interessante o fato que, por si só, já contesta criticamente as nossas crenças na nossa sociedade particular, que nos insta a acreditá-la como a sociedade universal. De fato, o amor materno deixa de ser acreditado como o universal, passando a ser particular em relação ao amor paterno, que agora pode reivindicar os “direitos naturais” da reprodução materna. Contudo, e apesar de serem particulares, esses amores (masculino e feminino em relação biológica com a reprodução) são considerados universais na nossa sociedade particular. Isso implica que onde não houver amor biológico na reprodução, não haverá também possibilidade social de viver. E um exemplo típico da nossa pesquisa esclarece que essa necessidade biológica, ou natural, do ser humano amar, não é tão natural assim; é, antes, uma imposição social. O conceito freudiano de desamparo é a prova incontestável de que se tenta aplicar em uma ontologia os efeitos discursivos do amor: a ontologia é a da criança que nasce desamparada para ser amada.

Parece-nos que desde 1932, pelo menos, com a publicação de Brave new world, da autoria de Aldous Huxley, existe a possibilidade discursiva do ser humano não necessitar mais dar à luz filhos. Na sociedade narrada por Huxley, as crianças eram geradas por máquinas do Estado, e este cuidava da educação dos cidadãos hierarquizados. Se há discursivamente a possibilidade de não ter filhos, há concomitantemente, no mínimo, um deslocamento das crenças nos corpos que geram filhos com amor. Por mais bestial que isso possa parecer – abjeto mesmo! -, é algo que a crítica deve levar em consideração se quer que as crenças movidas pela força simbólica da sociedade sejam desarticuladas. A construção de Huxley pode significar, portanto, que a nossa realidade particular de amor, no sentido mais biologicamente determinado, é uma construção social passível de ser contestada, para o malogro dos essencialismos biologizantes.

A conquista de Beatie é, sem dúvidas, coletiva, e agrega forças críticas para descontruir a domideologia do amor. É um primeiro passo para que, posteriormente - não se sabe quando! -, percebamos que a realidade social do amor foi apenas mais uma construção social investida de dominação e ideologia (que justificou muitos dos nossos assassinatos, machismos, ciúmes, invejas, homofobias, misoginias, racismos… violências religiosas, políticas, nacionais, enfim, todo o sectarismo de amor).

La question humaine

Augusto César Francisco

O filme francês do diretor Nicolas Klotz intitulado A questão humana narra os acontecimentos coletivos de uma multinacional alemã do ramo petroquímico instalada no nordeste da França e os acontecimentos particulares na vida profissional e pessoal de um psicólogo dessa empresa. Lançado em 2007, a produção tenta abordar como alguns princípios racionais da modernidade estão presentes na nossa vida cotidiana sem que nos apercebamos do fato, tecendo um paralelo muito sutil da moderna racionalidade nazista de classificação para a morte e da contemporânea racionalidade capitalista de classificação para o lucro – ambas renegando “a questão humana”. O palco dos acontecimentos é a empresa SC Farb, depois de uma reestruturação que reduziu o quadro de funcionários de 2500 para 1600, e o pensamento do psicólogo Simon (Mathieu Amalric), que deve executar uma tarefa de investigação para saber se o diretor regional está com a “saúde mental” afetada.

Com uma magnífica trilha sonora de Syd Matters, que acompanha o compasso quase alucinante do enredo, intercalando instrumentos simples de sopro e a mais eletrônica música, o filme retrata as conseqüências contemporâneas da racionalização da vida cotidiana. Simon, que teve um papel “indireto” na reestruturação da empresa na tarefa de estabelecer critérios de seleção, agora é convocado por Karl Rose – um dos diretores da filial da empresa na França –, sob as ordens da sede na Alemanha, a investigar a depressão do diretor geral Mathias Jüst, que apresenta uma série de “sintomas”. Disposto a cumprir o objetivo sem questionamento, Simon lança mão de meios profissionais antiéticos para infiltrar-se na vida pessoal do senhor Jüst, vasculhando a relação dele com o quarteto de músicos da empresa anos antes de sua admissão como psicólogo. Depois da reestruturação da empresa, o quarteto se desfez com a demissão de Arie Neumann.

Indo a fundo na investigação, Simon começa a se dar conta de um nível subterrâneo do que insistia aparentemente (na superfície) em se inscrever como “loucura” no contexto da empresa; é o nível da mesma racionalização do que houve no nazismo e do que há no capitalismo contemporâneo. Com a descoberta de que o senhor Jüst estava implicado indiretamente nos eventos da “solução final” dos nazistas, e de que Karl Rose era uma criança Lebesborn (sistema nazista de fazer nascer crianças puramente arianas que se submetiam apenas ao Estado; não tinham família), Simon começa a se dar conta de que os efeitos psicológicos da época nazista eram muito semelhantes aos vividos no presente por Jüst, considerando que o seu adoecimento psíquico poderia ser apenas a não conformação emocional com os princípios racionais de classificação capitalista para a finalidade de lucro.

Quando Jüst sai de cena, acometido por transtornos mentais e por uma tentativa de suicídio, no momento em que entrega as cartas anônimas que vinha recebendo a Simon, que passa então a recebê-las de um anônimo. Lendo as que recebeu de Jüst, dá-se conta de que se trata de explicações de como os nazistas executavam os judeus com a técnica racional de uma morte econômica, tudo detalhadamente como se fosse um manual. Recebendo agora essas cartas anônimas, de uma cidade do interior da França, Simon viaja até a cidade e descobre que o autor das cartas era o senhor Neumann, que fora anteriormente demitido da SC Farb (e agora é músico). Há um diálogo de extrema beleza entre Simon e Neumann, o primeiro acusando o segundo de anonimato, com a defesa deste de que o próprio sistema não pode ficar anônimo, ou seja, que o sistema da linguagem “neutra” era sim responsabilidade do sujeito. A língua “neutra” era aquela que classificava racionalmente para excluir sem que os seus autores fossem responsabilizados. Quando os autores são responsabilizados pelos seus atos, é porque a linguagem deixar de ser neutra, e as “funções” no seio da instituição não podem mais sustentar o “não humano”, a classificação perversa que exclui, o princípio de identidade que adere a si mesmo para expulsar tudo o que não seja de si:

– Arie Neumann?
– Sim, sou eu. Sente-se.
– É uma covardia enviar cartas sem assiná-las.
– Por que veio me ver?
– Sua última carta foi particularmente insultante.
– Você poderia tê-la rasgado, você poderia tê-la queimado.
– Talvez. Mas eu queria ver a sua cara.
– Cada um desses textos é assinado, com o nome ou pelo sistema que os produziu.
– É uma perversão não se mostrar à luz. Não é humano.
– Você está certo. As palavras são exatamente essas: ‘Não humanas’.
– Uma brincadeira no nome de Jüst.
– Uma brincadeira em um nome, uma palavra por outra. Uma semelhança. É tão banal nesses dias. Linguagem é um meio poderoso de propaganda. Ao mesmo tempo, é muito público e muito secreto. O efeito dessa propaganda não é produzido por discursos, artigos e tratos de propaganda. Penetram na carne e no sangue das massas. Você sabia que nós não temos hoje pessoas pobres? Só gente modesta. Nós não falamos mais de questões, por exemplo, a “questão social”, mas de problemas que nossos especialistas separam em uma série de problemas técnicos. Para cada um, eles encontraram a melhor solução individual. Formas eficientes. Sim, mas, as palavras esvaziadas de todo o significado. É uma quebra da língua. Uma língua morta, neutra, invadida por palavras técnicas. A língua que absorve sua humanidade. Você compreende?

Uma ótima idéia é assistir ao filme depois de ler o artigo Ciência e técnica como ideologia, de Jürgen Habermas. No Jornal Le Monde há uma reportagem interessante sobre o filme, e em Evene.fr há uma entrevista com o diretor, Nicolas Klotz, e com o ator principal, Mathieu Amalric.