Crítica da Domideologia

Aniversário de um ano da defesa de “O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia”

Outubro 30, 2008 · 3 Comentários

Augusto César Francisco

Apresento a minha reflexão sobre o aniversário de um ano da defesa da pesquisa intitulada O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia, intercalando os vídeos de sua comunicação, que está integralmente gravada em DVD. A pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PGCS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoiada indiretamente pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).

Há exatamente um ano atrás, em 30 de outubro de 2007, na UFRN, eu defendi escrita, oral, integral e publicamente a pesquisa sobre a domideologia no discurso freudiano sobre o amor. Foi um momento único e de extrema alegria, pois ficara para sempre inscrito o primeiro resultado do meu projeto intelectual, que se baseia no meu esforço científico e na colaboração dos meus professores e amigos que propõem a construção coletiva do conhecimento. Realizei uma exposição razoável das idéias que basearam a pesquisa e ocorreu tudo como imaginei. Para criticar a ideologia de algo que está religiosamente fixado na realidade social, como é o caso do amor, corre-se muito risco e colhe-se pouca simpatia. A minha sorte foi encontrar pessoas empáticas, que se colocam no meu lugar – não falo aqui do “meu” lugar e sim de uma posição coletiva. Essa empatia é justamente relativa ao lugar contra o qual os “eruditos” (hoje, partidários políticos) investem poder para suprimir qualquer “cabeça realmente eminente”, como disse Schopenhauer (A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 28): “(…) na república dos eruditos, cada um procura promover a si próprio para conquistar algum reconhecimento, e a única coisa com que todos estão de acordo é em não deixar que desponte uma cabeça realmente eminente, quando ela tende a se destacar, pois tal coisa representaria um perigo para todos ao mesmo tempo”.

O meu projeto intelectual inaugurou-se no final de 2002 quando eu conheci o projeto intelectual do teórico Alípio de Sousa filho sobre a crítica da dominação e da ideologia culturais. Desde 1999, eu vinha de uma formação ao mesmo tempo sociológica e psicanalítica, mas algo me incomodava na psicanálise – era o discurso sobre o amor, principalmente o associado ao conceito de narcisismo. A proposta de Alípio de Sousa de uma crítica cultural dos discursos dominantes e ideológicos veio suprir uma lacuna que eu identificara em relação ao discurso sobre o amor da psicanálise. Em 2004, o meu projeto intelectual ficou consciente da ruptura epistemológica que já delineava a minha trajetória acadêmica, quando reli, por meio daquela proposta crítica, o conceito freudiano de desamparo. O conceito de desamparo em Freud quer dizer que a criança necessita de amor para sair de um suposto estado de desamparo infantil, única condição para que não pereça. Contudo, de acordo com a nossa leitura, esse desamparo não pode vir na coisa-em-si-do-infante, é antes uma imposição discursiva para que ela (a coisa-em-si-do-infante) possa emergir na (nossa) cultura (particular), uma imposição acompanhada do significante “amor”. O amor é, assim, o discurso dominante e ideológico para sujeitar o insurgente serzinho na nossa cultura particular.

Em 2007, defendi o projeto que é quase o sinônimo de minha vida. Trata-se de uma crítica do discurso domideológico sobre o amor que Freud incorpora nos seus conceitos psicanalíticos, em especial nos conceitos de falo, castração, narcisismo e complexo de Édipo. Essa incorporação de “amor” obedece a uma imposição cultural que materializa a psicanálise teórica e institucional até os nossos dias. Baseando-me em Alípio de Sousa, em Judith Butler, em Kaja Silverman, em Michel Foucault, em Pierre Bourdieu, em Eric Santner, em Ives Hendrick e no próprio Freud, pude realizar uma série de releituras científicas sobre o funcionamento da teoria e da instituição psicanalíticas – uma releitura sociológica e antropológica, é verdade. Essas releituras científicas importam aos interessados em uma ruptura epistemológica, por meio do pensamento daqueles autores supracitados, no seguinte sentido:

a) A dominação e a ideologia, embora sejam diferentes, são as responsáveis por um evento único: domi(nação e i)deologia na cultura; domideologia, portanto. Baseando-se na leitura de Karl Marx, que sustenta a dominação e a ideologia com uma funcionalidade recíproca necessária, mas construindo as suas teorias com o materialismo histórico, Alípio de Sousa formula a tese de que a dominação e a ideologia, com a mesma funcionalidade recíproca necessária, podem ser pensadas com o materialismo cultural. Daí decorre que a ruptura epistemológica proposta por Alípio de Sousa em relação a Karl Marx assume a noção de domideologia, que é a dominação e a ideologia trabalhando juntas para impor e naturalizar a cultura.

b) O amor é domideológico. Constatamos que o discurso sobre o amor é domideológico, ele se fundamenta nas mesmas premissas de realidade social imediata para naturalizar ideologicamente a dominação imposta pela cultura na emergência do sujeito.

c) O amor domideológico investe a teoria da psicanálise freudiana. Freud, desde os seus primeiros escritos positivistas até os derradeiros escritos londrinos, baseia-se no discurso sobre o amor para elaborar suas teorias sobre a sexualidade humana. Nessa elaboração teórica, ele fundamenta os conceitos com o discurso sobre o amor.

d) O amor domideológico investe a instituição psicanalítica. Por meio de práticas sociais, os sujeitos retornam o amor domideológico vindo da cultura na direção do outro. As seções de análise, as análises supervisionadas, as “transferências” analíticas, as “contratransferências”, os psicanalistas e os psicananlisandos, os mestres e os aprendizes, as conferências, as reuniões, os textos psicanalíticos, são todos investidos de amor, que é um significante domideológico. As engrenagens institucionais da psicanálise somente são possíveis porque existe o “amor”. E o amor ressoou sentido em 1914, quando Freud Publicou A história do movimento psicanalítico, delimitando o terreno institucional e teórico na órbita do amor. Do ponto de vista institucional, Freud definiu os seus limites políticos com o Amor que excluiu Adler e Jung do front psicanalítico; do ponto de vista teórico, limitou as suas definições teóricas com o Amor que ele incluiu definitivamente nos conceitos teóricos da psicanálise. Isso faz história até os dias de hoje por meio de outras escolas.

e) O amor domideológico é uma contratransferência. A transferência de cultura é o processo material pelo qual a ideologia naturaliza a dominação imposta para a hegemonia de uma cultura particular frente a outras culturas particulares. A contratransferência é o processo domideológico para que a transferência não seja contestada nos seus padrões hegemônicos de cultura. Não há uma fronteira nítida entre a transferência e a contratransferência porque não existe esse lugar psicanalítico de “saber”, e ele não é tão “suposto” quanto parece. É que mesmo com as ferramentas mais técnicas para conduzir a tradicional análise (freudiana ou freud-lacaniana), não existe garantia de que a contratransferência de domideologia não ocorra, e o “amor” é o nosso exemplo típico. O amor domideológico, que naturaliza a imposição de cultura, é perpetuado contratransferencialmente na tradicional “transferência” da psicanálise atual. Isso porque a psicanálise utiliza um discurso domideológico sobre o amor na composição teórica do conceito de transferência. O psicanalista acaba assumindo uma sujeição inconsciente que não deseja somente para si, deseja para o outro também.

f) O amor é uma pulsão de dominação. A “pulsão” freudiana é construída com o discurso sobre o amor domideológico e fundamentada por aquilo que Judith Butler entendeu por performatividade coagida a repetir. Reformulando esse discurso sobre o amor que está dentro da “pulsão”, constatamos que a pulsão na verdade é de dominação simbólica, no sentido de Bourdieu. A dominação simbólica obedece a uma performatividade que a materializa como necessidade humana, vital, social etc. A pulsão é essa coação a repetição da dominação simbólica, e o nosso objeto privilegiado é o amor. Dessa maneira, o amor é uma pulsão de dominação simbólica.

g) A “fonte” da pulsão é o sobre-eu. Freud sustentou em sua obra que a “fonte” da pulsão era o “isso” ou que ela vinha do inconsciente ou ainda simplesmente vinha (de um lugar desconhecido) inconscientemente. Criticamos essa posição de Freud por meio da análise crítica do amor segundo a proposta de Alípio de Sousa, com a dominação e a ideologia, e Judith Butler, com a coação à repetição e a performatividade, resultando na nossa noção de domideologia. A pulsão freudiana é construída com o discurso sobre o amor, que é um dos seus principais elementos (ao lado da repetição). Freud construiu uma pulsão antes do discurso – uma pulsão pré-discursiva –, constituída principalmente pelo amor. Em O mal-estar na cultura, isso é evidente, com a postulação de Freud de que existe um mandamento de supereu que ordena ao indivíduo que ame o seu próximo como a si mesmo. O mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não pode vir antes da cultura que lhe impõe. E um “supereu cultural” justificado na base filogênica de que o assassinato do pai pelos filhos da horda primeira fora um ato que instaura o ódio e o amor pode ser contestado na medida em que se baseia nesse ódio e nesse amor para se instaurar; pode ser contestado, portanto, pela constatação de que não pode haver um ódio e um amor antes do ato que os cria na cultura.

h) Estamos falando, portanto, de uma epistemologia de ruptura com o dado imediato (a pulsão de dominação de amor, que vem do sobre-eu), a qual chamamos de Antropologia do Sobre-Eu para deixar claro que estamos filiados à proposta dos autores supracitados, principalmente Judith Butler e Alípio de Sousa, respectivamente com a teoria queer e a teoria construcionista crítica.

***

Recentemente, encontrei um artigo muito interessante de Jacques Bril intitulado Pour une anthropologie du surmoi, publicado em 1987 no número 6 da Revista Francesa de Psicanálise. Ele está autorizado à publicação em http://pagesperso-orange.fr/geza.roheim/html/briljac.htm. Embora a expressão “Antropologia do Supereu” haja pelo menos desde 1987, e Bril se esforça para lançar luz nas (muitas vezes esquecidas) fontes culturais e sociais da psicanálise, o nosso objetivo com a nossa Antropologia do Sobre-eu é completamente diferente. Não partimos da psicanálise para analisar a sociedade e a cultura. Partimos sim da antropologia e da sociologia para analisar a psicanálise teórica e institucional. E, complementando esta advertência, embora haja pelo menos uma vez a ocorrência da expressão “pulsão do supereu” no mundo da ciência, na página 31-32 do livro de Jacques-Alain Miller intitulado Biología lacaniana y acontecimento del cuerpo, de 2002, a nossa pulsão do sobre-eu se destaca por postular sistematicamente – ao contrário de Miller que apenas menciona a expressão “pulsão do supereu” sem sistematização – que a pulsão: a) tem por “fonte” o sobre-eu; e b) tem por “efeito” a dominação simbólica. Essa idéia de Miller é recuperada por Ana Maria Rudge no artigo Pulsão de morte como efeito de supereu, publicado no Agora: Estudos em Teoria Psicanalítica (jan./jun. de 2006), ligando a pulsão de morte ao supereu (como instância posterior ao isso e ao eu) – entende-se aqui que somente a pulsão de morte é uma pulsão do supereu e que a morte é quase uma mística natural da cultura. Para nós, ao contrário, ela é uma pulsão de dominação simbólica que advém performativamente da coação à repetição do sobre-eu, no sentido de formar um eu imaginário que desconhece a imposição de dominação graças à naturalização da ideologia, segredando esse processo domideológico ao isso, o espaço inconsciente. O sobre-eu é a “primeira instância” e as outras duas, o eu e o isso, lhe são paradoxalmente concomitantes. A pulsão emerge do sobre-eu para ser de dominação simbólica (de morte, de vida, de amor, de ódio, etc.).

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