Augusto César Francisco
A imprensa mundial (Times1, Times2, Globo…) noticiou neste o ano o fato de Thomas Beatie (34 anos) estar grávido e de ter dado à luz uma criança nos EUA. Beatie nasceu uma “mulher” chamada Tracy Longodino e trocou legalmente de sexo, tendo se casado com Nancy, que não pode ter filhos devido à sua histerectomia (a remoção do útero por meio de cirurgia). Como tinham o desejo de ter filhos, Beatie, que apesar de ser legalmente “homem” tem os órgãos femininos capazes de gerar filhos, se responsabilizou por engravidar. Esse fato abre um precedente para a crítica da domideologia de amor, pois desarticula a ficção dominante de que o amor materno é o principal veículo entre a sociedade e o novo serzinho (que vem surgindo). Não é mais o amor materno que está em jogo; aqui, evidencia-se no discurso o “amor paterno”, com a justificativa de que “ter uma criança biológica não é nem um desejo masculino e nem feminino, mas um desejo humano”, segundo Beatie. A partir desse momento, o homem pode dar à luz, portanto.
O amor materno criticado nas ciências humanas do século XX e XXI pode desligar-se do gênero, finalmente, mas ainda não se desligou do “desejo humano”. Acreditamos que é muito interessante o fato que, por si só, já contesta criticamente as nossas crenças na nossa sociedade particular, que nos insta a acreditá-la como a sociedade universal. De fato, o amor materno deixa de ser acreditado como o universal, passando a ser particular em relação ao amor paterno, que agora pode reivindicar os “direitos naturais” da reprodução materna. Contudo, e apesar de serem particulares, esses amores (masculino e feminino em relação biológica com a reprodução) são considerados universais na nossa sociedade particular. Isso implica que onde não houver amor biológico na reprodução, não haverá também possibilidade social de viver. E um exemplo típico da nossa pesquisa esclarece que essa necessidade biológica, ou natural, do ser humano amar, não é tão natural assim; é, antes, uma imposição social. O conceito freudiano de desamparo é a prova incontestável de que se tenta aplicar em uma ontologia os efeitos discursivos do amor: a ontologia é a da criança que nasce desamparada para ser amada.
Parece-nos que desde 1932, pelo menos, com a publicação de Brave new world, da autoria de Aldous Huxley, existe a possibilidade discursiva do ser humano não necessitar mais dar à luz filhos. Na sociedade narrada por Huxley, as crianças eram geradas por máquinas do Estado, e este cuidava da educação dos cidadãos hierarquizados. Se há discursivamente a possibilidade de não ter filhos, há concomitantemente, no mínimo, um deslocamento das crenças nos corpos que geram filhos com amor. Por mais bestial que isso possa parecer – abjeto mesmo! -, é algo que a crítica deve levar em consideração se quer que as crenças movidas pela força simbólica da sociedade sejam desarticuladas. A construção de Huxley pode significar, portanto, que a nossa realidade particular de amor, no sentido mais biologicamente determinado, é uma construção social passível de ser contestada, para o malogro dos essencialismos biologizantes.
A conquista de Beatie é, sem dúvidas, coletiva, e agrega forças críticas para descontruir a domideologia do amor. É um primeiro passo para que, posteriormente - não se sabe quando! -, percebamos que a realidade social do amor foi apenas mais uma construção social investida de dominação e ideologia (que justificou muitos dos nossos assassinatos, machismos, ciúmes, invejas, homofobias, misoginias, racismos… violências religiosas, políticas, nacionais, enfim, todo o sectarismo de amor).

7 respostas Até agora ↓
Debys // Novembro 13, 2008 às 6:43 pm |
Oi queridos, parabéns pelo blog! Adorei o artigo e particularmente no momento, adoraria que o meu namorido estivesse “grávido” no meu lugar, rsrs…Bjs!
Um homem está grávido pela segunda vez e terá mais uma criança! « Crítica da Domideologia // Novembro 13, 2008 às 7:00 pm |
[...] reprodutivos femininos para tornar-me um pai”, diz ele. Veja aqui o nosso artigo anterior: Um homem estava grávido e deu à luz um filho. Há muita gente revoltada com Beatie: pessoas homofóbicas e misóginas, que não admitem que as [...]
Laurisa e Augusto // Novembro 13, 2008 às 7:16 pm |
Olá, Debys, muito obrigad@ pelo comentário. Seria maravilhoso que o seu namorido estivesse grávido
Então, vamos tod@s passar o natal junt@s? Valeu, bjs.
neiriane // Junho 13, 2009 às 3:43 pm |
ola
Carlos Roberto // Junho 14, 2009 às 12:45 am |
PERIGO A VISTA!
A imoralidade esta avançando e fazendo seus estragos. Quem paga o preço é a FAMÍLIA que está servindo de deboche e de escárnio para os oportunistas. Primeiro que ele “NÃO MUDOU DE SEXO”, mudou o seu “ESTEREOTIPO”, pois sexo jamais se muda, nasce com ele e com ele vai morrer. É a “BIOLOGIA” e não eu que faz esta afirmação. Lamentavelmente tem muita gente embarcando nesta canoa furada e dando espaço na “MÍDIA” para este tipo de porcaria.
O ser humano está “RIDICULARIZANDO” Deus quando se submete a coisas desta natureza, pois se ele, na concepção, definiu como macho ou fêmea aquilo que virá ao mundo por uma “MÃE” jamais poderia o homem “TENTAR” alterar de forma violenta o projeto original de Deus. Ao se mutilar por um processo RIDÍCULO cirúrgico, homem ou mulher estará tão somente mudando as “APARÊNCIAS” posto que a originalidade é “IMUTÁVEL”.
A humanidade está sendo “DESMORALIZADA” pela classe médica quando esta se sujeita a realizar atos cirúrgicos para a “ADAPTAÇÃO” de um sexo a outro. Pior, estão fazendo isto, encarnados numa mentira deslavada e profunda que não é revelada ao paciente, já que qualquer profissional da área de medicina sabe, pela formação que possuem, que é “IMPOSSÍVEL” mudar o sexo de alguém. A “IRRESPONSABILIDADE” profissional neste caso é evidente!
É humilhante e deprimente ver estas aberrações acontecendo e tendo a aprovação da sociedade e da mídia. Mídia que compactua com esta “ASNEIRA” com toda a naturalidade do mundo o que não é surpresa, pois sabem eles que se forem contra perderão rios de dinheiro dos defensores destas imoralidades. É constrangedor ver que mesmo no Brasil as autoridades estejam “INSTITUCIONALIZANDO” esta prática perniciosa e vergonhosa com a desculpa esfarrapada de estarem atendendo aos “DIREITOS HUMANOS”. E os DIREITOS DA SOCIEDADE? E os DIREITOS DA FAMÍLIA? E os DIREITOS DOS PAIS em ver seus filhos no estado original de concepção? E o DIREITO DOS FAMILIARES em conviver com um parente da forma como ele foi gerado? Quanta humilhação será para esta criança ao descobrir esta barbárie que cometeram com ela! E aí? De quem é a responsabilidade?
É preciso com urgência coibir esta prática, do contrário com a família descendo ladeira abaixo como está será inevitável o convite para o “VELÓRIO” da mesma. O caixão parece que até já foi encomendado e o cemitério escolhido, quem sabe não aparece um Padre disposto a celebrar a “Missa de Corpo Presente”? Afinal, a “IGREJA CATÓLICA” tem demonstrado apoio total a estas aberrações quando evita condenar as práticas homossexuais que são largamente praticadas por seus seguidores.
Carlos Roberto Martins de Souza
crms2casa@otmail.com
Laurisa e Augusto // Junho 15, 2009 às 7:16 pm |
Caro Carlos,
O que recomendamos para você é um pouco de leitura de antropologia e, mais especificamente, de estudos de gênero. A dica é que você leia a Revista de Estudos Feministas, mais conhecida como REF; há os Cadernos PAGU; e a minha preferida é a Revista Bagoas de estudos gays e lésbicos, onde você encontra material suficiente para repensar as suas opiniões. Devo informar que a família já foi tomada de assalto por gays, lésbicas e transexuais – não há mais volta, há famílias gays, lésbicas e transexuais. Temos amigos vivendo dessa maneira e garantimos que eles não vão para o inferno. Eles serão inclusive abençoados por deus, que lhes dará o paraíso da felicidade na terra.
Volte sempre, você é bem vindo nesse espaço de reflexão gay, lésbico, negro e feminino.
yasmin lara // Outubro 6, 2009 às 12:42 pm |
eu nunca
vie na
minha
vida um
homem gravido