A CRIAÇÃO DE ADÃO E A PERFORMATIVIDADE DOMIDEOLÓGICA DE AMOR
Augusto César Francisco
Nossa problemática da crítica da domideologia do amor relacionado ao sexo/gênero e à geração está desenhada em A criação de Adão, do pintor Michelangelo Buonarroti, um afresco pintado no teto da Capela Sistina por volta de 1511. Nesse afresco, que simboliza o momento da criação de Adão por Deus na narrativa bíblica do Gênesis, Deus aparece sustentado por anjos e uma figura feminina, que está sendo abraçada por Ele, com o braço esquerdo. Com o braço direito esticado e com o indicador apontado para o indicador da mão esquerda do braço esticado de Adão, Deus cria Adão. Este está semideitado sobre uma grande pedra com relvas, com o braço direito apoiado sobre ela, e o braço esquerdo esticado, com o dedo indicador passivamente na iminência do toque de Deus. Deus é apresentado como um ancião, vestido com um manto, enquanto Adão é um jovem nu.

O que chama a atenção imediatamente é que, embora Deus e Adão estejam no mesmo plano, numa simetria, Deus surge de um espaço interior e Adão de um espaço exterior. Deus surge de uma abertura cheia de seres compostos de maneira aleatória, segurando-o, alguns seres acabados, outros inacabados, alguns com a forma humana, outros com a forma inumana. Esses seres parecem perder-se dentro do vão, alguns apresentando somente uma silhueta; quanto mais fundo, menos têm a forma humana. Adão está perfeitamente acabado, sobre uma superfície, apresentando uma integridade humana. Se formularmos que esse ato, a criação de Adão, é uma lei, cujo poder é a própria criação, estaremos diante do que essa lei, por antecipação, ratifica. Adão, mesmo sem ter sido criado, já apresenta movimento em direção a Deus, e a figura feminina, supostamente Eva, já foi criada antes do ato de criação. Deus não surge senão de um vão, de onde a profundidade apaga as fisionomias humanas. O efeito de profundidade e superfície – profundidade em relação a Deus, e superfície em relação a Adão – é um efeito de poder, quando Deus cria Adão semelhante à sua imagem, mas não se sabe de onde veio a imagem de Deus. Se interpretarmos como um processo, esse ato nos revela que atrás de Deus estão figuras humanas que se tornam cada vez mais inumanas à medida que estão ao fundo do vão, sendo que, por meio da lei da criação, Adão é apresentado completo e perfeito, mas com um efeito de superfície. O processo nos revela que para Adão levantar o braço, ele já tinha sido criado anteriormente, assim como a figura feminina (supostamente Eva), que apóia Deus (sem ter sido criada). Se pensarmos no que representa, não podemos tirar a atenção de que se trata de um ancião e de um jovem, ambos masculinos. Se pensarmos em efeitos temporais dessa lei, podemos imaginar um vão profundo com um mundo inominado que se abre concomitantemente à figuração de Deus, masculino, culminando na suposta aparição de Adão, cuja imagem é semelhante a Deus. Posteriormente, Deus sumiria dentro desse vão, se o movimento temporal continuasse.
A pintura nos mostra que a lei tem um efeito material de superfície sem deixar de pressupor o antes do ato ratificado no depois do ato, como as formas vão se tornando humanas culminando em Deus e em sua autocriação na figura de Adão. O antes, contudo, é escondido, porque está perdido dentro do vão (a dominação está perdida na representação!) – mas pressupõe formas humanas. A pressuposição também coloca um Deus como pai e um adão como filho, ambos masculinos. Aqui, a lei é o efeito masculino por meio do princípio falogocêntrico. Se transgredirmos as normas temporais e espaciais, percebemos que Adão se torna Adão (vimos que ele já tinha sido criado antes de Deus criá-lo) identificando-se com Deus – Adão vai ao alcance de Deus, mesmo não tendo sido criado. Podemos dizer que Adão foi interpelado por Deus, por essa identidade ontológica que pressupõe a figura masculina, acabada, coerente e fixa. Nesse tempo mítico, Adão é coagido a tornar-se Deus. A lei da criação de Adão deixa essa imposição de identidade flutuante, porquanto há um efeito de superfície sim, mas não sem o “risco” dessa superfície se transformar em outras coisas de Deus, no antes inumano do ato, inclusive de se transformar na figura feminina. O ato em si não quer dizer nada, mas as pressuposições do ato, a maneira pré-discursiva das figuras que apóiam Deus, e a imposição pré-social da lei masculina da criação nos dizem muito.
Se acrescentarmos o amor no ato de criação de Adão por Deus, a pintura se torna ainda mais interessante. Se Deus cria Adão por amor, esse amor é de um homem para um homem e de um pai para um filho, colocados antecipadamente à criação, e tirando todas as outras possibilidades de amor ter surgido com um outro plano divino. Se levarmos às últimas conseqüências, Adão se identifica com o amor domideológico de Deus (amor paterno de pai para filho), numa exclusão abjeta do feminino (da filha?) que se encontra ao lado de Deus, e de todas as outras possibilidades inumanas que O acompanham. A imposição reiterada a Adão é que ele se torne antes homem e filho, diante de um Deus que toma a lei para si e se faz crer como masculino e paterno. Ao tomar a lei de amor como masculino e paterno, ele pressupõe que antes da criação era tudo esse amor, ratificando esses elementos pré-discursivos nos efeitos da lei. A coerência e a fixidez não funcionam sem colocar os efeitos materiais de superfície na criação, enquanto a identidade da criação corre o risco subversivo de afundar no buraco. O que vemos são efeitos da lei, expressões tidas como resultado. O sexo/gênero, a geração e o amor são efeitos (nota 1), pressuposições que perdem a sustentação quando a lei se mostra levando-as consigo desde um tempo mítico até a ratificação. A criação é um toque de um Deus ativo para um Adão que surge passivo, é um gesto de geração de um pai para seu filho, de um homem para outro, e de amor. O que vem de dentro é a dominação desse discurso, cujos efeitos são repetitivos: o que vem de dentro é o “Pai”, é “Masculino”, é “Deus”, e são todos os seres que O sustentam. O fundo real do simbólico é a dominação desse simbólico não na figura de Deus, nem no cenário desse teatro fantástico, senão no próprio encenar, na performatividade que isso representa, da repetição constante desse discurso, na coação a representar e teorizar conforme manda o figurino, “Deus” na pele de “Deus”, “Adão” na pele de “Adão”, repetidas vezes, em direção ao eterno retorno.
Nota 1: “Nesse sentido, o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra. No desafio de repensar as categorias do gênero fora da metafísica da substância, é mister considerar a relevância da afirmação de Nietzsche, em A genealogia da moral, de que ‘não há ‘se’ por trás do fazer, do realizar e do tornar-se; o fazedor é uma mera ficção acrescentada à obra – a obra é tudo’. Numa aplicação que o próprio Nietzsche não teria antecipado ou aprovado, nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero por trás das expressões de gênero; essa identidade é performativamente constituída, pelas próprias ‘expressões’ tidas como seus resultados” (Judith BUTLER, Problemas de gênero, 1999, p. 48). Poderíamos também dizer que não existe identidade de amor “por trás” das expressões de amor – a identidade de amor que possivelmente é o fundamento da criação, o motivo divino principal, é um efeito performativo da criação; os efeitos do amor que trazem uma aparência de identidade: dos homens que amam.

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