Crítica da Domideologia

Como está a nossa Universidade?

Novembro 23, 2008 · 2 Comentários

O IDEAL DE UNIVERSIDADE E DE SUA MISSÃO

Alípio de Sousa Filho – Professor da UFRN, Doutor em Sociologia pela Sorbonne

Desde seu surgimento – nos séculos XII e XIII –, as universidades têm sido acusadas de indiferentes às necessidades da sociedade, de serem centros de erudição monástica, lugar de diletantes, entre outras coisas. Tais acusações despertaram, no dizer de Kenneth Minogue, uma verdadeira “tradição de ataque à universidade”. Com o autor, podemos dizer que a história da universidade é a de uma instituição incompreendida, em torno da qual sempre esteve a idéia da necessidade de reformas. “Reformar a universidade” é idéia que coincide com a própria história da universidade nos diversos países.

(…)

Os ataques dirigidos contra as universidades (notadamente as públicas), há anos, seja na forma das acusações dirigidas a ela por agentes econômicos, seja na avaliação feita por dirigentes políticos, autoridades públicas, constituem, como dissemos, a forma de um cerco a que essas instituições sempre estiveram submetidas na história. Um cerco que tem na doutrina da necessidade de “adaptação da universidade à sociedade” um de seus pilares principais, sempre acionada por meio de eufemismos que procuram esconder a exigência de que a universidade se abra a interesses estranhos ao conhecimento teórico desinteressado – que deve ser seu único fim: conhecimento da realidade humana, histórica, social, conhecimento da natureza, sem fins práticos predeterminados por interesses que não sejam os do próprio conhecer ou definidos por demandas sociais que sejam de interesse da maioria social ou que representem contribuição ao desenvolvimento social, à emancipação humana, à democracia, aos direitos humanos universais.

(…)

A universidade precisa manter-se livre das pressões sociais – e mesmo também da pressão dos setores populares – porque, se fizer concessões ao pragmatismo, rebaixará suas tarefas a situações conjunturais, a demandas específicas, correndo o risco de se desfigurar a longo prazo. É sabido que essa visão é recusada por homens de negócio, por militantes das chamadas causas sociais, e por dirigentes políticos, que gostariam de ver a universidade servindo a imediatismos, mas é preciso que os universitários resistam como aqueles que são os únicos que podem sustentar o ideal de universidade. Citarei K. Jaspers mais uma vez: “Se a universidade baixa de nível, a sociedade e o Estado naufragam com ela.”

(…)

Desse modo, a missão da universidade, quanto a si própria e à sociedade, é tornar-se o lugar da formação de uma elite intelectual, cultural e científica. Esta não é uma elite de classe, mas uma elite de espírito. Nem por isso elitista e diletante. O sentido de ser elite aqui é apenas o do elevado grau de compreensão da realidade que passam a ter todos aqueles que se beneficiam da educação no modo teórico-filosófico-científico de pensar, que as universidades são lugares em que se deve praticar sem descanso, e que a sociedade deve procurar alargar o acesso a tantos mais quanto seja possível. Um alargamento que não pode ser acompanhado do rebaixamento do nível de ensino e do rigor para com as coisas da ciência. A estrita autodisciplina a cumprir para os deveres da atividade científica de produção do conhecimento exige uma educação que não suporta o baixo nível que, em geral, se vem admitindo com a massificação do ensino superior.

(…)

Como vivemos em sociedades divididas em interesses, a missão da universidade define-se com relação a esses interesses e ao conflito destes. Se pensarmos o caso da universidade pública, uma clara opção se torna necessária: mantida com recursos públicos, ela somente pode se destinar àqueles interesses que realizem interesses públicos, coletivos, o interesse geral, o bem comum. Isso não deve significar “universidade dos pobres”, “universidade dos trabalhadores”, “universidade popular”. Essa idéia é um atentado ao conceito de universidade. Na universidade, o conflito de interesses não é luta de classes, nem o conflito de interesses tem sua solução na opção demagógica por classes.

(…)

A sociedade deve saber que a universidade não pode ser populista em seus princípios. O populismo e a demagogia podem levar a universidade à sua falência total. Dirigentes, professores, funcionários e estudantes universitários não podem ser demagógicos em suas visões da universidade. Assim, certos modelos de avaliação e propostas de reforma de currículos, métodos de ensino, duração dos cursos, níveis de exigência, etc., sob o pretexto de tornar a formação universitária mais flexível, adaptada aos tempos, produtiva, útil, colocam em risco a universidade, a educação superior, a produção do conhecimento teórico, a ciência.

(…)

[Texto completo na página do professor Alípio de Sousa]

Categorias: Crítica da Universidade

2 respostas Até agora ↓

  • Henrique Alves // Novembro 28, 2008 às 7:10 pm | Responder

    Em um primeiro momento, não me parece que a visão apresentada pelo autor sobre os “fins práticos” na Universidade seja aplicável às engenharias.

  • Laurisa e Augusto // Novembro 28, 2008 às 7:56 pm | Responder

    Henrique, obrigad@ por seu comentário. Leio “fins práticos” aqui como o limite entre a ciência e a política, os fins práticos do conhecimento ou os do engajamento político. Os fins práticos da Universidade e do conhecimento não podem ser baseados por interesses políticos imediatos.

Deixe um comentário