SLAVOJ ZIZEK NO CONTEXTO DAS MUTAÇÕES CONTEMPORÂNEAS
Augusto César Francisco
No dia 14 de outubro, assistimos à palestra do professor Slavoj Zizek no SESC Vila Mariana de São Paulo. Ele começou a conferência falando sobre ideologia, no discurso pós-marxista. Falou sobre alguns recursos da ideologia, dentre os quais o principal é a necessidade atual de elegermos uma entidade para que ela acredite por nós na coisa ideológica. Diz ele, embalado por aquela teorização sobre o cinismo, que hoje nós não precisamos mais acreditar na ideologia, desde que ela funcione. Que não acreditamos mais na crença, mas na funcionalidade da crença; e se a crença funciona na realidade, então é porque acreditamos em uma entidade que acredita nessa crença. Deu exemplos dos discursos do Rumsfeld nos EUA, exemplificando: 1) aquilo que a gente sabe que sabe; 2) aquilo que a gente sabe que não sabe; 3) aquilo que a gente não sabe que sabe; e 4) aquilo que a gente não sabe que não sabe. Segundo ele, a ideologia está no 4), e esse discurso de não saber o que não se sabe foi a justificativa da invasão do Iraque. Talvez, um tipo “Nós não sabemos que não sabemos se o Iraque tem uma bomba atômica”.
Depois, ele acrescentou o exemplo de uma piada: a gente elege uma galinha como uma entidade que acredita em uma funcionalidade que prescinde da nossa própria crença. Ele deu como exemplo a psicose de uma anedota, em que o camarada se acreditava como um grão de milho e estava com medo de que a galinha fosse pegá-lo. Daí, o psiquiatra diz que ele não é um grão de milho, que isso é apenas ilusão da cabeça dele. O paciente diz, então, que pode até acreditar que ele não é realmente um grão de milho, mas questiona sobre a crença da galinha; ela acreditará realmente que ele não é um grão de milho?
Deu muitos exemplos, em relação à religião, cultura… para dizer sobre essa entidade que substitui a nossa crença ideológica. Deu o exemplo dos comodities, de que ele sabe que ele sabe que se todos retirarem o seu crédito do mercado, a bolsa vai quebrar. O que dá medo nele não é ele não saber que todos sabem disso também, porque se todos sabem e não retiram o dinheiro significa que a crença na entidade funciona. O que dá medo é ele não saber que todos não sabem disso, porque todos podem passar a saber.
Depois, ele chegou em um ponto que critico nele. Falando sobre a crença, ele afirmou que as histórias são mentirosas, e deu o exemplo de uma gafe que cometeu com a Judith Butler. Ele estava em uma conferência com ela, que estava acompanhada de uma linda moça lésbica também, e ele comentou de modo preconceituoso que a moça era muito bonita, mas era “lésbica”, como se fosse uma aberração. A Butler ficou muito indignada com o comentário, e depois, Zizek ligou para ela pedindo desculpas. Daí, ela disse “tudo bem, você é meu amigo etc e tal”. A crítica do Zizek é justamente que esse tipo de situação é mentiroso porque se ele não ligasse pedindo desculpas ela jamais teria dito que estava tudo bem. Eu achei esse tipo de crítica dele muito à la Mannheim, daquela coisa de que se todas as práticas são mentirosas, então tudo é mentira. Achei muito “relativismo absoluto”. Assim foi também na crítica dele sobre a tolerância. Ele está certo, por exemplo, em dizer que Martin Luther King nunca disse nada sobre tolerância no discurso político, e que os movimentos não querem que os outros sejam tolerantes. Eles está certo ao dizer que as lutas são por direitos, dinheiro, e coisas “reais”, que mudam a lógica das práticas. Mas o critério de análise dele foi, ao meu ver, de um relativismo absoluto, afirmando que se as práticas são mentirosas, tudo é mentira e a tolerância aí também está.

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