Crítica da Domideologia

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II Conferência Internacional do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra

Maio 4, 2009 · Deixe um comentário

cladin

TEMA: Áfricas: saberes, desenvolvimento e nações republicanas no século XXI.

Após ler atentamente todas as ponderações e sobretudo rever os temas sugeridos pelos participantes da I Conferência Internacional do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (I CONCLADIN), realizada em 2007, a comissão organizadora da II CONCLADIN, que ocorrerá nos dias 19, 20 e 21 de maio de 2009 na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Araraquara, escolheu para este ano o tema: ÁFRICAS: saberes, desenvolvimento e nações republicanas no século XXI. A conferência abrigará também o I Colóquio Internacional do NUPE e a I Reunião Científica do LEAD da Faculdade de Ciências e Letras – Campus de Araraquara – UNESP. Além disso, contaremos com os mini-cursos e as conversas temáticas Chá, café e chocolate, presentes na programação.

Nessa II CONCLADIN queremos trazer estudiosos e intelectuais de nações africanas, mas também de outros países. Buscaremos nessa Conferência estabelecer contato com pesquisadores e agentes sociais que trabalham em diversas partes do mundo e que possam refletir sobre o sentido das Repúblicas, das lutas por mais cidadania e pelo desenvolvimento, sobretudo no momento em que o Brasil completa 120 anos de sua proclamação da República, mas ainda mantém, sob diversos aspectos, a mentalidade escravista e a estrutura de mando e obediência do período colonial-imperial brasileiro.

Nessa II CONCLADIN debateremos com estudiosos e intelectuais de diversas nações africanas, bem como também teremos a oportunidade de conversar com pensadores de países de fora da África, além de podermos contar com um leque enorme de estudiosos nacionais.

Informações: Portal Áfricas

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Strange fruit – Billie Holiday

Novembro 21, 2008 · Deixe um comentário

Strange fruit

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

Fruta Estranha

Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros balançando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimando.

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Par o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Aqui está a estranha e amarga colheita.

***

As colonizações ainda mostram atualmente o que foram. Como isso é no Brasil?

Por que o “branco” é dominante e tenta nos submeter? Contra o essencialismo branco; a favor das múltiplas possibilidades de viver. Ser negr@ (negra e negro) é uma das nossas possibilidades de viver. Pela igualdade de salários, acesso aos bens públicos e privados, por respeito nas entradas simbólicas da sociedade! O racismo não está somente na fala; está também no pensamento. Só se fala com o pensamento e só se pensa com a fala.

Fontes: Letras Terra 1 e Letras Terra 2

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Ser negro no Brasil hoje – texto de Milton Santos

Novembro 20, 2008 · 2 Comentários

SER NEGRO NO BRASIL HOJE
Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro

Milton Santos

Há uma freqüente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador.  Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas.  Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas).  Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.

500 anos de culpa

Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica!  O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a freqüentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política conseqüente.  Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se próxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária,  sua catarse anual?

Hipocrisia permanente

No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo.  Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é?  Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é freqüentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambigüidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.

Marcas visíveis

Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.

Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é freqüente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.

A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.

Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro - imagem fácil - e não as minhas aquisições  intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambigüidade a que já nos referimos, cuja primeira conseqüência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.

Olhar enviesado

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel freqüentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em “faits-divers”, em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.

Ser negro no Brasil é, pois, com freqüência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranqüilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver “subido na vida”.

Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a  sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente  brasileiro no Brasil.

Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Fonte: Folha de S.Paulo – Mais – Brasil 501 d.c. – 07 de maio de 2000

Fonte: Antroposmoderno

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Aniversário de seis meses do nosso livro “O amor em mal-estar”

Novembro 15, 2008 · Deixe um comentário

No dia 15 de maio deste ano (2008), lançamos o nosso livro O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia na Casa das Rosas da cidade de São Paulo, um dos lugares mais bonitos para realizar uma cerimônia de lançamento. Eis a nossa fala na cerimônia:

Não é mero acaso o que conquistamos. Contamos com a colaboração de muitas pessoas, principalmente os nossos amigos, familiares e professores.

Nossos agradecimentos para:

A Casa das Rosas, a Associação Paulista dos Amigos da Arte e as maravilhosas pessoas que as mantém com o trabalho poético empolgante. A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo, que são responsáveis pela iniciativa da Casa das Rosas.

Postal Verso

A UFRN e o CNPq, instituições que receberam e financiaram a pesquisa. O DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) pela bolsa Winterkurs, que me ajudou no alemão de Freud e permitiu visitas nos museus de Freud em Viena e em Londres.

A Booklink Publicações e o Editor Glauco de Oliveira, que ajudam os escritores que não querem se submeter a um mercado editorial desumano. Não era Voltaire que publicava os seus próprios livros (como muitos franceses da época)? Seriam aceitos em uma Editora Só Quero Dinheiro? Vejam (e contribuam com) a Coleção Diversidade da Booklink, organizada pelo teórico Solimar Oliveira Lima (Homossexualidades sem fronteiras 1 e 2, e Aids e seus desnudamentos)

Postal FrenteO Francisco Santinho, que foi o diagramador e artista do trabalho da capa e de toda a divulgação do lançamento. O Chico, como o chamamos carinhosamente, é um amigo e brilhante artista, produzindo as mais belas peças gráficas com uma sensibilidade inesgotável. É claro, ele faz também por prazer. Quem estiver interessad@ (interessada ou interessado, por isso o “@”) em capas de livros e outras artes, pode entrar em contato conosco pelo e-mail domideologia@gmail.com, que o repassamos para o Chico. O desenho com o qual o Chico trabalhou se chama Les amants (Os amantes), de autoria do Alberto Lamback, artista plástico de grande talento formado na escola francesa e estudando agora em Londres, e um amigo que acolheu o Augusto quando estava precisando.

A Cláudia da Costa Melo, revisora de português e uma amiga que também nos acolheu quando precisávamos. Se houver interessados em revisão, por favor, envie-nos um e-mail.

O professor Alípio de Sousa Filho – um brilhante teórico contemporâneo que pensa à luz do ano 68 na prática –, que sempre incentivou a produção autônoma e independente, e a professora Lore Fortes, excelente pesquisadora e uma amiga querida – ela me deu uma moedinha para dar sorte em uma viagem que fiz; essa moeda me ajuda até hoje, pois é uma significante parte da minha sorte e felicidade.

A professora Sônia Maluf, pelas excelentes aulas sobre o feminismo e sobre Judith Butler, que é uma referência importante da nossa pesquisa, e a professora Maria do Socorro de Oliveira, pela leitura e contribuição com a pesquisa; ainda, a professora Viviane Herbele, pela generosidade de ceder algumas referências para xerox, principalmente de Bourdieu.

Arlete Prade (mãe do Augusto), pela leitura do texto da dissertação, que virou livro. Obrigad@, querida.

Ana e seu companheiro Jack (irmã e cunhado do Augusto), que sempre nos acolhe para o que precisamos. Aos nossos familiares queridos, que são uns fofos e nos ajudam a crescer.

A Rosa Maria de Oliveira, uma amiga querida que enviou muitos textos. Ela está concluindo uma pesquisa belíssima, uma excelente contribuição para a ciência humana. Em breve, ela divulgará a sua pesquisa, a qual estamos ansiosos por ler.

A Nadja Paiva, pela sua ajuda com as referências de Freud.

O Bruno Merini, pela compra de livros lá dos EUA, que na época nem sabíamos como comprar.

As jornalistas Jô Laps e Carol Passos pelo incentivo.

A tod@s (todas e todos) que contribuíram indiretamente para a realização da nossa pesquisa, nossos profundos agradecimentos.

Sem vocês tod@s, não seria possível realizá-la e muito menos continuar vivendo.

Convite Eletrônico

Quem desejar ler outras informações sobre a nossa pesquisa, pode clicar no Aniversário de um ano da defesa de “O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia”.

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INAUGURAÇÃO DO NOSSO BLOG: 14/11/2008

Novembro 4, 2008 · 2 Comentários

Laurisa Alves e Augusto César Francisco

Estamos muito felizes de poder dizer que o nosso blog Crítica da Domideologia será comemorado no dia 14 de novembro de 2008. É um tipo de inauguração, motivo para dizer e divulgar: ele está “no ar”. É muito gratificante ver o  nosso trabalho materializado em um blog, que aqui é um espaço crítico dos discursos da cultura e, principalmente, crítico das homofobias/misoginias/racismos.

Devemos brindar – escolhemos um lugar maravilhoso para comemorarmos! Tod@s estão convidad@s para comemorar conosco e com muita alegria no dia 14 de novembro, às 21h, no SESC Pompéia (São Paulo/SP), durante o Festival Mix Music, que é parte do Festival Mix Brasil de Cinema. É uma festa LGBT que alegrará a noite paulistana, e particularmente a nossa, na sexta-feira (14/11).

No Festival Mix Music, haverá a participação de Rita Ribeiro, Maria Alcina, a paraguaia Perla, Márvio (vocalista da banda Cabaret) e Tatá Aeroplano (vocalista do Cérebro Eletrônico), acompanhados por uma Big Band de músicos da cena independente nacional: Astronauta Pingüim nos teclados e direção musical, Alexandre Kanashiro (The Gasolines) na guitarra, Geórgia Branco (As Mercenárias e Wander Wildner) no baixo e Clayton Martim (Cidadão Instigado).

E no dia 15 de novembro, traremos um post especial para o blog, aguardem.

Muito obrigad@,

um beijo.

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Aniversário de um ano da defesa de “O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia”

Outubro 30, 2008 · 3 Comentários

Augusto César Francisco

Apresento a minha reflexão sobre o aniversário de um ano da defesa da pesquisa intitulada O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia, intercalando os vídeos de sua comunicação, que está integralmente gravada em DVD. A pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PGCS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoiada indiretamente pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).

Há exatamente um ano atrás, em 30 de outubro de 2007, na UFRN, eu defendi escrita, oral, integral e publicamente a pesquisa sobre a domideologia no discurso freudiano sobre o amor. Foi um momento único e de extrema alegria, pois ficara para sempre inscrito o primeiro resultado do meu projeto intelectual, que se baseia no meu esforço científico e na colaboração dos meus professores e amigos que propõem a construção coletiva do conhecimento. Realizei uma exposição razoável das idéias que basearam a pesquisa e ocorreu tudo como imaginei. Para criticar a ideologia de algo que está religiosamente fixado na realidade social, como é o caso do amor, corre-se muito risco e colhe-se pouca simpatia. A minha sorte foi encontrar pessoas empáticas, que se colocam no meu lugar – não falo aqui do “meu” lugar e sim de uma posição coletiva. Essa empatia é justamente relativa ao lugar contra o qual os “eruditos” (hoje, partidários políticos) investem poder para suprimir qualquer “cabeça realmente eminente”, como disse Schopenhauer (A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 28): “(…) na república dos eruditos, cada um procura promover a si próprio para conquistar algum reconhecimento, e a única coisa com que todos estão de acordo é em não deixar que desponte uma cabeça realmente eminente, quando ela tende a se destacar, pois tal coisa representaria um perigo para todos ao mesmo tempo”.

O meu projeto intelectual inaugurou-se no final de 2002 quando eu conheci o projeto intelectual do teórico Alípio de Sousa filho sobre a crítica da dominação e da ideologia culturais. Desde 1999, eu vinha de uma formação ao mesmo tempo sociológica e psicanalítica, mas algo me incomodava na psicanálise – era o discurso sobre o amor, principalmente o associado ao conceito de narcisismo. A proposta de Alípio de Sousa de uma crítica cultural dos discursos dominantes e ideológicos veio suprir uma lacuna que eu identificara em relação ao discurso sobre o amor da psicanálise. Em 2004, o meu projeto intelectual ficou consciente da ruptura epistemológica que já delineava a minha trajetória acadêmica, quando reli, por meio daquela proposta crítica, o conceito freudiano de desamparo. O conceito de desamparo em Freud quer dizer que a criança necessita de amor para sair de um suposto estado de desamparo infantil, única condição para que não pereça. Contudo, de acordo com a nossa leitura, esse desamparo não pode vir na coisa-em-si-do-infante, é antes uma imposição discursiva para que ela (a coisa-em-si-do-infante) possa emergir na (nossa) cultura (particular), uma imposição acompanhada do significante “amor”. O amor é, assim, o discurso dominante e ideológico para sujeitar o insurgente serzinho na nossa cultura particular.

Em 2007, defendi o projeto que é quase o sinônimo de minha vida. Trata-se de uma crítica do discurso domideológico sobre o amor que Freud incorpora nos seus conceitos psicanalíticos, em especial nos conceitos de falo, castração, narcisismo e complexo de Édipo. Essa incorporação de “amor” obedece a uma imposição cultural que materializa a psicanálise teórica e institucional até os nossos dias. Baseando-me em Alípio de Sousa, em Judith Butler, em Kaja Silverman, em Michel Foucault, em Pierre Bourdieu, em Eric Santner, em Ives Hendrick e no próprio Freud, pude realizar uma série de releituras científicas sobre o funcionamento da teoria e da instituição psicanalíticas – uma releitura sociológica e antropológica, é verdade. Essas releituras científicas importam aos interessados em uma ruptura epistemológica, por meio do pensamento daqueles autores supracitados, no seguinte sentido:

a) A dominação e a ideologia, embora sejam diferentes, são as responsáveis por um evento único: domi(nação e i)deologia na cultura; domideologia, portanto. Baseando-se na leitura de Karl Marx, que sustenta a dominação e a ideologia com uma funcionalidade recíproca necessária, mas construindo as suas teorias com o materialismo histórico, Alípio de Sousa formula a tese de que a dominação e a ideologia, com a mesma funcionalidade recíproca necessária, podem ser pensadas com o materialismo cultural. Daí decorre que a ruptura epistemológica proposta por Alípio de Sousa em relação a Karl Marx assume a noção de domideologia, que é a dominação e a ideologia trabalhando juntas para impor e naturalizar a cultura.

b) O amor é domideológico. Constatamos que o discurso sobre o amor é domideológico, ele se fundamenta nas mesmas premissas de realidade social imediata para naturalizar ideologicamente a dominação imposta pela cultura na emergência do sujeito.

c) O amor domideológico investe a teoria da psicanálise freudiana. Freud, desde os seus primeiros escritos positivistas até os derradeiros escritos londrinos, baseia-se no discurso sobre o amor para elaborar suas teorias sobre a sexualidade humana. Nessa elaboração teórica, ele fundamenta os conceitos com o discurso sobre o amor.

d) O amor domideológico investe a instituição psicanalítica. Por meio de práticas sociais, os sujeitos retornam o amor domideológico vindo da cultura na direção do outro. As seções de análise, as análises supervisionadas, as “transferências” analíticas, as “contratransferências”, os psicanalistas e os psicananlisandos, os mestres e os aprendizes, as conferências, as reuniões, os textos psicanalíticos, são todos investidos de amor, que é um significante domideológico. As engrenagens institucionais da psicanálise somente são possíveis porque existe o “amor”. E o amor ressoou sentido em 1914, quando Freud Publicou A história do movimento psicanalítico, delimitando o terreno institucional e teórico na órbita do amor. Do ponto de vista institucional, Freud definiu os seus limites políticos com o Amor que excluiu Adler e Jung do front psicanalítico; do ponto de vista teórico, limitou as suas definições teóricas com o Amor que ele incluiu definitivamente nos conceitos teóricos da psicanálise. Isso faz história até os dias de hoje por meio de outras escolas.

e) O amor domideológico é uma contratransferência. A transferência de cultura é o processo material pelo qual a ideologia naturaliza a dominação imposta para a hegemonia de uma cultura particular frente a outras culturas particulares. A contratransferência é o processo domideológico para que a transferência não seja contestada nos seus padrões hegemônicos de cultura. Não há uma fronteira nítida entre a transferência e a contratransferência porque não existe esse lugar psicanalítico de “saber”, e ele não é tão “suposto” quanto parece. É que mesmo com as ferramentas mais técnicas para conduzir a tradicional análise (freudiana ou freud-lacaniana), não existe garantia de que a contratransferência de domideologia não ocorra, e o “amor” é o nosso exemplo típico. O amor domideológico, que naturaliza a imposição de cultura, é perpetuado contratransferencialmente na tradicional “transferência” da psicanálise atual. Isso porque a psicanálise utiliza um discurso domideológico sobre o amor na composição teórica do conceito de transferência. O psicanalista acaba assumindo uma sujeição inconsciente que não deseja somente para si, deseja para o outro também.

f) O amor é uma pulsão de dominação. A “pulsão” freudiana é construída com o discurso sobre o amor domideológico e fundamentada por aquilo que Judith Butler entendeu por performatividade coagida a repetir. Reformulando esse discurso sobre o amor que está dentro da “pulsão”, constatamos que a pulsão na verdade é de dominação simbólica, no sentido de Bourdieu. A dominação simbólica obedece a uma performatividade que a materializa como necessidade humana, vital, social etc. A pulsão é essa coação a repetição da dominação simbólica, e o nosso objeto privilegiado é o amor. Dessa maneira, o amor é uma pulsão de dominação simbólica.

g) A “fonte” da pulsão é o sobre-eu. Freud sustentou em sua obra que a “fonte” da pulsão era o “isso” ou que ela vinha do inconsciente ou ainda simplesmente vinha (de um lugar desconhecido) inconscientemente. Criticamos essa posição de Freud por meio da análise crítica do amor segundo a proposta de Alípio de Sousa, com a dominação e a ideologia, e Judith Butler, com a coação à repetição e a performatividade, resultando na nossa noção de domideologia. A pulsão freudiana é construída com o discurso sobre o amor, que é um dos seus principais elementos (ao lado da repetição). Freud construiu uma pulsão antes do discurso – uma pulsão pré-discursiva –, constituída principalmente pelo amor. Em O mal-estar na cultura, isso é evidente, com a postulação de Freud de que existe um mandamento de supereu que ordena ao indivíduo que ame o seu próximo como a si mesmo. O mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não pode vir antes da cultura que lhe impõe. E um “supereu cultural” justificado na base filogênica de que o assassinato do pai pelos filhos da horda primeira fora um ato que instaura o ódio e o amor pode ser contestado na medida em que se baseia nesse ódio e nesse amor para se instaurar; pode ser contestado, portanto, pela constatação de que não pode haver um ódio e um amor antes do ato que os cria na cultura.

h) Estamos falando, portanto, de uma epistemologia de ruptura com o dado imediato (a pulsão de dominação de amor, que vem do sobre-eu), a qual chamamos de Antropologia do Sobre-Eu para deixar claro que estamos filiados à proposta dos autores supracitados, principalmente Judith Butler e Alípio de Sousa, respectivamente com a teoria queer e a teoria construcionista crítica.

***

Recentemente, encontrei um artigo muito interessante de Jacques Bril intitulado Pour une anthropologie du surmoi, publicado em 1987 no número 6 da Revista Francesa de Psicanálise. Ele está autorizado à publicação em http://pagesperso-orange.fr/geza.roheim/html/briljac.htm. Embora a expressão “Antropologia do Supereu” haja pelo menos desde 1987, e Bril se esforça para lançar luz nas (muitas vezes esquecidas) fontes culturais e sociais da psicanálise, o nosso objetivo com a nossa Antropologia do Sobre-eu é completamente diferente. Não partimos da psicanálise para analisar a sociedade e a cultura. Partimos sim da antropologia e da sociologia para analisar a psicanálise teórica e institucional. E, complementando esta advertência, embora haja pelo menos uma vez a ocorrência da expressão “pulsão do supereu” no mundo da ciência, na página 31-32 do livro de Jacques-Alain Miller intitulado Biología lacaniana y acontecimento del cuerpo, de 2002, a nossa pulsão do sobre-eu se destaca por postular sistematicamente – ao contrário de Miller que apenas menciona a expressão “pulsão do supereu” sem sistematização – que a pulsão: a) tem por “fonte” o sobre-eu; e b) tem por “efeito” a dominação simbólica. Essa idéia de Miller é recuperada por Ana Maria Rudge no artigo Pulsão de morte como efeito de supereu, publicado no Agora: Estudos em Teoria Psicanalítica (jan./jun. de 2006), ligando a pulsão de morte ao supereu (como instância posterior ao isso e ao eu) – entende-se aqui que somente a pulsão de morte é uma pulsão do supereu e que a morte é quase uma mística natural da cultura. Para nós, ao contrário, ela é uma pulsão de dominação simbólica que advém performativamente da coação à repetição do sobre-eu, no sentido de formar um eu imaginário que desconhece a imposição de dominação graças à naturalização da ideologia, segredando esse processo domideológico ao isso, o espaço inconsciente. O sobre-eu é a “primeira instância” e as outras duas, o eu e o isso, lhe são paradoxalmente concomitantes. A pulsão emerge do sobre-eu para ser de dominação simbólica (de morte, de vida, de amor, de ódio, etc.).

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