No SESC-SP Consolação, haverá a peça Viver sem tempos mortos, sobre a história de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, entre 23/05 e 28/06 (da quinta-feira ao domingo). De Beauvoir foi uma filósofa feminista muito importante para a França e para o mundo, assim como Sartre. A concepção e a interpretação são de Fernanda Montenegro. Os ingressos se esgotam rapidamente. Já temos presença no dia 13/06 junto com as estudantes dos estudos de gênero da UNESP-FCLAR, mas uma estréia sempre é bem-vinda – quem sabe?
Entrevista concedida à jornalista Caroline Passos, para o Jornal de Santa Catarina (Blumenau), no dia 05 de maio de 2007 (publicada no dia 12 de maio de 2007). Para baixar o arquivo da entrevista, clique na figura.
estamos de volta para postar semanalmente conteúdo crítico. Pedimos desculpas aos leitores que tentaram acompanhar um blog que não atualizava constantemente. São poucos os leitores ainda, é verdade. A nossa preocupação inicial é formar um conteúdo interessante, que tem a ver com o nosso projeto intelectual. Depois, procuraremos agregar mais gente nas discussões críticas. A nossa ausência se deve a uma série de motivos. Em dezembro, o Augusto teve seleção de doutorado na UNESP de Araraquara. Foi selecionado em terceiro lugar. A Laurisa estava com milhares de trabalhos na pós da FESPSP. Além disso, muito trabalho no portal do SESC. Depois de tanto trabalho de ambos, resolveram partir para umas férias bem gostosas em Blumenau/SC. Na volta, milhares de coisas para fazer, as exigências do trabalho no SESC para a Laurisa e do doutorado para o Augusto. Falaremos sobre tudo isso. Pretendemos também debater sério sobre a nossa pesquisa nos próximos posts. Acompanhem.
A CRIAÇÃO DE ADÃO E A PERFORMATIVIDADE DOMIDEOLÓGICA DE AMOR
Augusto César Francisco
Nossa problemática da crítica da domideologia do amor relacionado ao sexo/gênero e à geração está desenhada em A criação de Adão, do pintor Michelangelo Buonarroti, um afresco pintado no teto da Capela Sistina por volta de 1511. Nesse afresco, que simboliza o momento da criação de Adão por Deus na narrativa bíblica do Gênesis, Deus aparece sustentado por anjos e uma figura feminina, que está sendo abraçada por Ele, com o braço esquerdo. Com o braço direito esticado e com o indicador apontado para o indicador da mão esquerda do braço esticado de Adão, Deus cria Adão. Este está semideitado sobre uma grande pedra com relvas, com o braço direito apoiado sobre ela, e o braço esquerdo esticado, com o dedo indicador passivamente na iminência do toque de Deus. Deus é apresentado como um ancião, vestido com um manto, enquanto Adão é um jovem nu.
O que chama a atenção imediatamente é que, embora Deus e Adão estejam no mesmo plano, numa simetria, Deus surge de um espaço interior e Adão de um espaço exterior. Deus surge de uma abertura cheia de seres compostos de maneira aleatória, segurando-o, alguns seres acabados, outros inacabados, alguns com a forma humana, outros com a forma inumana. Esses seres parecem perder-se dentro do vão, alguns apresentando somente uma silhueta; quanto mais fundo, menos têm a forma humana. Adão está perfeitamente acabado, sobre uma superfície, apresentando uma integridade humana. Se formularmos que esse ato, a criação de Adão, é uma lei, cujo poder é a própria criação, estaremos diante do que essa lei, por antecipação, ratifica. Adão, mesmo sem ter sido criado, já apresenta movimento em direção a Deus, e a figura feminina, supostamente Eva, já foi criada antes do ato de criação. Deus não surge senão de um vão, de onde a profundidade apaga as fisionomias humanas. O efeito de profundidade e superfície – profundidade em relação a Deus, e superfície em relação a Adão – é um efeito de poder, quando Deus cria Adão semelhante à sua imagem, mas não se sabe de onde veio a imagem de Deus. Se interpretarmos como um processo, esse ato nos revela que atrás de Deus estão figuras humanas que se tornam cada vez mais inumanas à medida que estão ao fundo do vão, sendo que, por meio da lei da criação, Adão é apresentado completo e perfeito, mas com um efeito de superfície. O processo nos revela que para Adão levantar o braço, ele já tinha sido criado anteriormente, assim como a figura feminina (supostamente Eva), que apóia Deus (sem ter sido criada). Se pensarmos no que representa, não podemos tirar a atenção de que se trata de um ancião e de um jovem, ambos masculinos. Se pensarmos em efeitos temporais dessa lei, podemos imaginar um vão profundo com um mundo inominado que se abre concomitantemente à figuração de Deus, masculino, culminando na suposta aparição de Adão, cuja imagem é semelhante a Deus. Posteriormente, Deus sumiria dentro desse vão, se o movimento temporal continuasse.
A pintura nos mostra que a lei tem um efeito material de superfície sem deixar de pressupor o antes do ato ratificado no depois do ato, como as formas vão se tornando humanas culminando em Deus e em sua autocriação na figura de Adão. O antes, contudo, é escondido, porque está perdido dentro do vão (a dominação está perdida na representação!) – mas pressupõe formas humanas. A pressuposição também coloca um Deus como pai e um adão como filho, ambos masculinos. Aqui, a lei é o efeito masculino por meio do princípio falogocêntrico. Se transgredirmos as normas temporais e espaciais, percebemos que Adão se torna Adão (vimos que ele já tinha sido criado antes de Deus criá-lo) identificando-se com Deus – Adão vai ao alcance de Deus, mesmo não tendo sido criado. Podemos dizer que Adão foi interpelado por Deus, por essa identidade ontológica que pressupõe a figura masculina, acabada, coerente e fixa. Nesse tempo mítico, Adão é coagido a tornar-se Deus. A lei da criação de Adão deixa essa imposição de identidade flutuante, porquanto há um efeito de superfície sim, mas não sem o “risco” dessa superfície se transformar em outras coisas de Deus, no antes inumano do ato, inclusive de se transformar na figura feminina. O ato em si não quer dizer nada, mas as pressuposições do ato, a maneira pré-discursiva das figuras que apóiam Deus, e a imposição pré-social da lei masculina da criação nos dizem muito.
Se acrescentarmos o amor no ato de criação de Adão por Deus, a pintura se torna ainda mais interessante. Se Deus cria Adão por amor, esse amor é de um homem para um homem e de um pai para um filho, colocados antecipadamente à criação, e tirando todas as outras possibilidades de amor ter surgido com um outro plano divino. Se levarmos às últimas conseqüências, Adão se identifica com o amor domideológico de Deus (amor paterno de pai para filho), numa exclusão abjeta do feminino (da filha?) que se encontra ao lado de Deus, e de todas as outras possibilidades inumanas que O acompanham. A imposição reiterada a Adão é que ele se torne antes homem e filho, diante de um Deus que toma a lei para si e se faz crer como masculino e paterno. Ao tomar a lei de amor como masculino e paterno, ele pressupõe que antes da criação era tudo esse amor, ratificando esses elementos pré-discursivos nos efeitos da lei. A coerência e a fixidez não funcionam sem colocar os efeitos materiais de superfície na criação, enquanto a identidade da criação corre o risco subversivo de afundar no buraco. O que vemos são efeitos da lei, expressões tidas como resultado. O sexo/gênero, a geração e o amor são efeitos (nota 1), pressuposições que perdem a sustentação quando a lei se mostra levando-as consigo desde um tempo mítico até a ratificação. A criação é um toque de um Deus ativo para um Adão que surge passivo, é um gesto de geração de um pai para seu filho, de um homem para outro, e de amor. O que vem de dentro é a dominação desse discurso, cujos efeitos são repetitivos: o que vem de dentro é o “Pai”, é “Masculino”, é “Deus”, e são todos os seres que O sustentam. O fundo real do simbólico é a dominação desse simbólico não na figura de Deus, nem no cenário desse teatro fantástico, senão no próprio encenar, na performatividade que isso representa, da repetição constante desse discurso, na coação a representar e teorizar conforme manda o figurino, “Deus” na pele de “Deus”, “Adão” na pele de “Adão”, repetidas vezes, em direção ao eterno retorno.
Nota 1: “Nesse sentido, o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra. No desafio de repensar as categorias do gênero fora da metafísica da substância, é mister considerar a relevância da afirmação de Nietzsche, em A genealogia da moral, de que ‘não há ‘se’ por trás do fazer, do realizar e do tornar-se; o fazedor é uma mera ficção acrescentada à obra – a obra é tudo’. Numa aplicação que o próprio Nietzsche não teria antecipado ou aprovado, nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero por trás das expressões de gênero; essa identidade é performativamente constituída, pelas próprias ‘expressões’ tidas como seus resultados” (Judith BUTLER, Problemas de gênero, 1999, p. 48). Poderíamos também dizer que não existe identidade de amor “por trás” das expressões de amor – a identidade de amor que possivelmente é o fundamento da criação, o motivo divino principal, é um efeito performativo da criação; os efeitos do amor que trazem uma aparência de identidade: dos homens que amam.
No dia 15 de maio deste ano (2008), lançamos o nosso livro O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia na Casa das Rosas da cidade de São Paulo, um dos lugares mais bonitos para realizar uma cerimônia de lançamento. Eis a nossa fala na cerimônia:
Não é mero acaso o que conquistamos. Contamos com a colaboração de muitas pessoas, principalmente os nossos amigos, familiares e professores.
Nossos agradecimentos para:
A Casa das Rosas, a Associação Paulista dos Amigos da Arte e as maravilhosas pessoas que as mantém com o trabalho poético empolgante. A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo, que são responsáveis pela iniciativa da Casa das Rosas.
A UFRN e o CNPq, instituições que receberam e financiaram a pesquisa. O DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) pela bolsa Winterkurs, que me ajudou no alemão de Freud e permitiu visitas nos museus de Freud em Viena e em Londres.
A Booklink Publicações e o Editor Glauco de Oliveira, que ajudam os escritores que não querem se submeter a um mercado editorial desumano. Não era Voltaire que publicava os seus próprios livros (como muitos franceses da época)? Seriam aceitos em uma Editora Só Quero Dinheiro? Vejam (e contribuam com) a Coleção Diversidade da Booklink, organizada pelo teórico Solimar Oliveira Lima (Homossexualidades sem fronteiras 1 e 2, e Aids e seus desnudamentos)
O Francisco Santinho, que foi o diagramador e artista do trabalho da capa e de toda a divulgação do lançamento. O Chico, como o chamamos carinhosamente, é um amigo e brilhante artista, produzindo as mais belas peças gráficas com uma sensibilidade inesgotável. É claro, ele faz também por prazer. Quem estiver interessad@ (interessada ou interessado, por isso o “@”) em capas de livros e outras artes, pode entrar em contato conosco pelo e-mail domideologia@gmail.com, que o repassamos para o Chico. O desenho com o qual o Chico trabalhou se chama Les amants (Os amantes), de autoria do Alberto Lamback, artista plástico de grande talento formado na escola francesa e estudando agora em Londres, e um amigo que acolheu o Augusto quando estava precisando.
A Cláudia da Costa Melo, revisora de português e uma amiga que também nos acolheu quando precisávamos. Se houver interessados em revisão, por favor, envie-nos um e-mail.
O professor Alípio de Sousa Filho – um brilhante teórico contemporâneo que pensa à luz do ano 68 na prática –, que sempre incentivou a produção autônoma e independente, e a professora Lore Fortes, excelente pesquisadora e uma amiga querida – ela me deu uma moedinha para dar sorte em uma viagem que fiz; essa moeda me ajuda até hoje, pois é uma significante parte da minha sorte e felicidade.
A professora Sônia Maluf, pelas excelentes aulas sobre o feminismo e sobre Judith Butler, que é uma referência importante da nossa pesquisa, e a professora Maria do Socorro de Oliveira, pela leitura e contribuição com a pesquisa; ainda, a professora Viviane Herbele, pela generosidade de ceder algumas referências para xerox, principalmente de Bourdieu.
A Arlete Prade (mãe do Augusto), pela leitura do texto da dissertação, que virou livro. Obrigad@, querida.
A Ana e seu companheiro Jack (irmã e cunhado do Augusto), que sempre nos acolhe para o que precisamos. Aos nossos familiares queridos, que são uns fofos e nos ajudam a crescer.
A Rosa Maria de Oliveira, uma amiga querida que enviou muitos textos. Ela está concluindo uma pesquisa belíssima, uma excelente contribuição para a ciência humana. Em breve, ela divulgará a sua pesquisa, a qual estamos ansiosos por ler.
A Nadja Paiva, pela sua ajuda com as referências de Freud.
O Bruno Merini, pela compra de livros lá dos EUA, que na época nem sabíamos como comprar.
As jornalistas Jô Laps e Carol Passos pelo incentivo.
A tod@s (todas e todos) que contribuíram indiretamente para a realização da nossa pesquisa, nossos profundos agradecimentos.
Sem vocês tod@s, não seria possível realizá-la e muito menos continuar vivendo.
Trouxemos a reflexão sobre o fato que desestabiliza a “ordem do amor materno”, embora isso reforce paradoxalmente a “ordem da família”. Beatie será pai novamente, um pai grávido: “Eu usei meus órgãos reprodutivos femininos para tornar-me um pai”, diz ele. Veja aqui o nosso artigo anterior: Um homem estava grávido e deu à luz um filho. Há muita gente revoltada com Beatie: pessoas homofóbicas e misóginas, que não admitem que as suas crenças possam ser contestadas por outros fatos culturais. A verdade é que o real está “invadindo” a realidade, como diria o teórico Alípio de Sousa; e essa expansão da realidade social é contrariada pela ameaça da domideologia, que nos diz que as coisas sociais são naturais, divinas, eternas e universais. Pois aí está o fato que balança com a religião e com a moral (é, Presidente Lula e Papa Ratzinger, não adianta vocês virem com acordos religiosos – veja em globo.com! Enquanto vocês aderem ao conservadorismo, a dialética social mostra a sua cara. Não esqueçamos que o Vaticano é contra o uso de meios de contracepção e contra o casamento de parceiros do mesmo sexo – Thomas Beatie deve ser o Satanás para essa gente! Mas quem mesmo vendeu a alma para o diabo? – É, senhores, a República não se esquecerá)…
Estamos muito felizes de poder dizer que o nosso blog Crítica da Domideologia será comemorado no dia 14 de novembro de 2008. É um tipo de inauguração, motivo para dizer e divulgar: ele está “no ar”. É muito gratificante ver o nosso trabalho materializado em um blog, que aqui é um espaço crítico dos discursos da cultura e, principalmente, crítico das homofobias/misoginias/racismos.
Devemos brindar – escolhemos um lugar maravilhoso para comemorarmos! Tod@s estão convidad@s para comemorar conosco e com muita alegria no dia 14 de novembro, às 21h, no SESC Pompéia (São Paulo/SP), durante o Festival Mix Music, que é parte do Festival Mix Brasil de Cinema. É uma festa LGBT que alegrará a noite paulistana, e particularmente a nossa, na sexta-feira (14/11).
No Festival Mix Music, haverá a participação de Rita Ribeiro, Maria Alcina, a paraguaia Perla, Márvio (vocalista da banda Cabaret) e Tatá Aeroplano (vocalista do Cérebro Eletrônico), acompanhados por uma Big Band de músicos da cena independente nacional: Astronauta Pingüim nos teclados e direção musical, Alexandre Kanashiro (The Gasolines) na guitarra, Geórgia Branco (As Mercenárias e Wander Wildner) no baixo e Clayton Martim (Cidadão Instigado).
E no dia 15 de novembro, traremos um post especial para o blog, aguardem.
A imprensa mundial (Times1, Times2, Globo…) noticiou neste o ano o fato de Thomas Beatie (34 anos) estar grávido e de ter dado à luz uma criança nos EUA. Beatie nasceu uma “mulher” chamada Tracy Longodino e trocou legalmente de sexo, tendo se casado com Nancy, que não pode ter filhos devido à sua histerectomia (a remoção do útero por meio de cirurgia). Como tinham o desejo de ter filhos, Beatie, que apesar de ser legalmente “homem” tem os órgãos femininos capazes de gerar filhos, se responsabilizou por engravidar. Esse fato abre um precedente para a crítica da domideologia de amor, pois desarticula a ficção dominante de que o amor materno é o principal veículo entre a sociedade e o novo serzinho (que vem surgindo). Não é mais o amor materno que está em jogo; aqui, evidencia-se no discurso o “amor paterno”, com a justificativa de que “ter uma criança biológica não é nem um desejo masculino e nem feminino, mas um desejo humano”, segundo Beatie. A partir desse momento, o homem pode dar à luz, portanto.
O amor materno criticado nas ciências humanas do século XX e XXI pode desligar-se do gênero, finalmente, mas ainda não se desligou do “desejo humano”. Acreditamos que é muito interessante o fato que, por si só, já contesta criticamente as nossas crenças na nossa sociedade particular, que nos insta a acreditá-la como a sociedade universal. De fato, o amor materno deixa de ser acreditado como o universal, passando a ser particular em relação ao amor paterno, que agora pode reivindicar os “direitos naturais” da reprodução materna. Contudo, e apesar de serem particulares, esses amores (masculino e feminino em relação biológica com a reprodução) são considerados universais na nossa sociedade particular. Isso implica que onde não houver amor biológico na reprodução, não haverá também possibilidade social de viver. E um exemplo típico da nossa pesquisa esclarece que essa necessidade biológica, ou natural, do ser humano amar, não é tão natural assim; é, antes, uma imposição social. O conceito freudiano de desamparo é a prova incontestável de que se tenta aplicar em uma ontologia os efeitos discursivos do amor: a ontologia é a da criança que nasce desamparada para ser amada.
Parece-nos que desde 1932, pelo menos, com a publicação de Brave new world, da autoria de Aldous Huxley, existe a possibilidade discursiva do ser humano não necessitar mais dar à luz filhos. Na sociedade narrada por Huxley, as crianças eram geradas por máquinas do Estado, e este cuidava da educação dos cidadãos hierarquizados. Se há discursivamente a possibilidade de não ter filhos, há concomitantemente, no mínimo, um deslocamento das crenças nos corpos que geram filhos com amor. Por mais bestial que isso possa parecer – abjeto mesmo! -, é algo que a crítica deve levar em consideração se quer que as crenças movidas pela força simbólica da sociedade sejam desarticuladas. A construção de Huxley pode significar, portanto, que a nossa realidade particular de amor, no sentido mais biologicamente determinado, é uma construção social passível de ser contestada, para o malogro dos essencialismos biologizantes.
A conquista de Beatie é, sem dúvidas, coletiva, e agrega forças críticas para descontruir a domideologia do amor. É um primeiro passo para que, posteriormente - não se sabe quando! -, percebamos que a realidade social do amor foi apenas mais uma construção social investida de dominação e ideologia (que justificou muitos dos nossos assassinatos, machismos, ciúmes, invejas, homofobias, misoginias, racismos… violências religiosas, políticas, nacionais, enfim, todo o sectarismo de amor).
Apresento a minha reflexão sobre o aniversário de um ano da defesa da pesquisa intitulada O amor em mal-estar: a insustentável leveza da domideologia, intercalando os vídeos de sua comunicação, que está integralmente gravada em DVD. A pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PGCS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoiada indiretamente pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).
Há exatamente um ano atrás, em 30 de outubro de 2007, na UFRN, eu defendi escrita, oral, integral e publicamente a pesquisa sobre a domideologia no discurso freudiano sobre o amor. Foi um momento único e de extrema alegria, pois ficara para sempre inscrito o primeiro resultado do meu projeto intelectual, que se baseia no meu esforço científico e na colaboração dos meus professores e amigos que propõem a construção coletiva do conhecimento. Realizei uma exposição razoável das idéias que basearam a pesquisa e ocorreu tudo como imaginei. Para criticar a ideologia de algo que está religiosamente fixado na realidade social, como é o caso do amor, corre-se muito risco e colhe-se pouca simpatia. A minha sorte foi encontrar pessoas empáticas, que se colocam no meu lugar – não falo aqui do “meu” lugar e sim de uma posição coletiva. Essa empatia é justamente relativa ao lugar contra o qual os “eruditos” (hoje, partidários políticos) investem poder para suprimir qualquer “cabeça realmente eminente”, como disse Schopenhauer (A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 28): “(…) na república dos eruditos, cada um procura promover a si próprio para conquistar algum reconhecimento, e a única coisa com que todos estão de acordo é em não deixar que desponte uma cabeça realmente eminente, quando ela tende a se destacar, pois tal coisa representaria um perigo para todos ao mesmo tempo”.
O meu projeto intelectual inaugurou-se no final de 2002 quando eu conheci o projeto intelectual do teórico Alípio de Sousa filho sobre a crítica da dominação e da ideologia culturais. Desde 1999, eu vinha de uma formação ao mesmo tempo sociológica e psicanalítica, mas algo me incomodava na psicanálise – era o discurso sobre o amor, principalmente o associado ao conceito de narcisismo. A proposta de Alípio de Sousa de uma crítica cultural dos discursos dominantes e ideológicos veio suprir uma lacuna que eu identificara em relação ao discurso sobre o amor da psicanálise. Em 2004, o meu projeto intelectual ficou consciente da ruptura epistemológica que já delineava a minha trajetória acadêmica, quando reli, por meio daquela proposta crítica, o conceito freudiano de desamparo. O conceito de desamparo em Freud quer dizer que a criança necessita de amor para sair de um suposto estado de desamparo infantil, única condição para que não pereça. Contudo, de acordo com a nossa leitura, esse desamparo não pode vir na coisa-em-si-do-infante, é antes uma imposição discursiva para que ela (a coisa-em-si-do-infante) possa emergir na (nossa) cultura (particular), uma imposição acompanhada do significante “amor”. O amor é, assim, o discurso dominante e ideológico para sujeitar o insurgente serzinho na nossa cultura particular.
Em 2007, defendi o projeto que é quase o sinônimo de minha vida. Trata-se de uma crítica do discurso domideológico sobre o amor que Freud incorpora nos seus conceitos psicanalíticos, em especial nos conceitos de falo, castração, narcisismo e complexo de Édipo. Essa incorporação de “amor” obedece a uma imposição cultural que materializa a psicanálise teórica e institucional até os nossos dias. Baseando-me em Alípio de Sousa, em Judith Butler, em Kaja Silverman, em Michel Foucault, em Pierre Bourdieu, em Eric Santner, em Ives Hendrick e no próprio Freud, pude realizar uma série de releituras científicas sobre o funcionamento da teoria e da instituição psicanalíticas – uma releitura sociológica e antropológica, é verdade. Essas releituras científicas importam aos interessados em uma ruptura epistemológica, por meio do pensamento daqueles autores supracitados, no seguinte sentido:
a) A dominação e a ideologia, embora sejam diferentes, são as responsáveis por um evento único: domi(nação e i)deologia na cultura; domideologia, portanto. Baseando-se na leitura de Karl Marx, que sustenta a dominação e a ideologia com uma funcionalidade recíproca necessária, mas construindo as suas teorias com o materialismo histórico, Alípio de Sousa formula a tese de que a dominação e a ideologia, com a mesma funcionalidade recíproca necessária, podem ser pensadas com o materialismo cultural. Daí decorre que a ruptura epistemológica proposta por Alípio de Sousa em relação a Karl Marx assume a noção de domideologia, que é a dominação e a ideologia trabalhando juntas para impor e naturalizar a cultura.
b) O amor é domideológico. Constatamos que o discurso sobre o amor é domideológico, ele se fundamenta nas mesmas premissas de realidade social imediata para naturalizar ideologicamente a dominação imposta pela cultura na emergência do sujeito.
c) O amor domideológico investe a teoria da psicanálise freudiana. Freud, desde os seus primeiros escritos positivistas até os derradeiros escritos londrinos, baseia-se no discurso sobre o amor para elaborar suas teorias sobre a sexualidade humana. Nessa elaboração teórica, ele fundamenta os conceitos com o discurso sobre o amor.
d) O amor domideológico investe a instituição psicanalítica. Por meio de práticas sociais, os sujeitos retornam o amor domideológico vindo da cultura na direção do outro. As seções de análise, as análises supervisionadas, as “transferências” analíticas, as “contratransferências”, os psicanalistas e os psicananlisandos, os mestres e os aprendizes, as conferências, as reuniões, os textos psicanalíticos, são todos investidos de amor, que é um significante domideológico. As engrenagens institucionais da psicanálise somente são possíveis porque existe o “amor”. E o amor ressoou sentido em 1914, quando Freud Publicou A história do movimento psicanalítico, delimitando o terreno institucional e teórico na órbita do amor. Do ponto de vista institucional, Freud definiu os seus limites políticos com o Amor que excluiu Adler e Jung do front psicanalítico; do ponto de vista teórico, limitou as suas definições teóricas com o Amor que ele incluiu definitivamente nos conceitos teóricos da psicanálise. Isso faz história até os dias de hoje por meio de outras escolas.
e) O amor domideológico é uma contratransferência. A transferência de cultura é o processo material pelo qual a ideologia naturaliza a dominação imposta para a hegemonia de uma cultura particular frente a outras culturas particulares. A contratransferência é o processo domideológico para que a transferência não seja contestada nos seus padrões hegemônicos de cultura. Não há uma fronteira nítida entre a transferência e a contratransferência porque não existe esse lugar psicanalítico de “saber”, e ele não é tão “suposto” quanto parece. É que mesmo com as ferramentas mais técnicas para conduzir a tradicional análise (freudiana ou freud-lacaniana), não existe garantia de que a contratransferência de domideologia não ocorra, e o “amor” é o nosso exemplo típico. O amor domideológico, que naturaliza a imposição de cultura, é perpetuado contratransferencialmente na tradicional “transferência” da psicanálise atual. Isso porque a psicanálise utiliza um discurso domideológico sobre o amor na composição teórica do conceito de transferência. O psicanalista acaba assumindo uma sujeição inconsciente que não deseja somente para si, deseja para o outro também.
f) O amor é uma pulsão de dominação. A “pulsão” freudiana é construída com o discurso sobre o amor domideológico e fundamentada por aquilo que Judith Butler entendeu por performatividade coagida a repetir. Reformulando esse discurso sobre o amor que está dentro da “pulsão”, constatamos que a pulsão na verdade é de dominação simbólica, no sentido de Bourdieu. A dominação simbólica obedece a uma performatividade que a materializa como necessidade humana, vital, social etc. A pulsão é essa coação a repetição da dominação simbólica, e o nosso objeto privilegiado é o amor. Dessa maneira, o amor é uma pulsão de dominação simbólica.
g) A “fonte” da pulsão é o sobre-eu. Freud sustentou em sua obra que a “fonte” da pulsão era o “isso” ou que ela vinha do inconsciente ou ainda simplesmente vinha (de um lugar desconhecido) inconscientemente. Criticamos essa posição de Freud por meio da análise crítica do amor segundo a proposta de Alípio de Sousa, com a dominação e a ideologia, e Judith Butler, com a coação à repetição e a performatividade, resultando na nossa noção de domideologia. A pulsão freudiana é construída com o discurso sobre o amor, que é um dos seus principais elementos (ao lado da repetição). Freud construiu uma pulsão antes do discurso – uma pulsão pré-discursiva –, constituída principalmente pelo amor. Em O mal-estar na cultura, isso é evidente, com a postulação de Freud de que existe um mandamento de supereu que ordena ao indivíduo que ame o seu próximo como a si mesmo. O mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não pode vir antes da cultura que lhe impõe. E um “supereu cultural” justificado na base filogênica de que o assassinato do pai pelos filhos da horda primeira fora um ato que instaura o ódio e o amor pode ser contestado na medida em que se baseia nesse ódio e nesse amor para se instaurar; pode ser contestado, portanto, pela constatação de que não pode haver um ódio e um amor antes do ato que os cria na cultura.
h) Estamos falando, portanto, de uma epistemologia de ruptura com o dado imediato (a pulsão de dominação de amor, que vem do sobre-eu), a qual chamamos de Antropologia do Sobre-Eu para deixar claro que estamos filiados à proposta dos autores supracitados, principalmente Judith Butler e Alípio de Sousa, respectivamente com a teoria queer e a teoria construcionista crítica.
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Recentemente, encontrei um artigo muito interessante de Jacques Bril intitulado Pour une anthropologie du surmoi, publicado em 1987 no número 6 da Revista Francesa de Psicanálise. Ele está autorizado à publicação em http://pagesperso-orange.fr/geza.roheim/html/briljac.htm. Embora a expressão “Antropologia do Supereu” haja pelo menos desde 1987, e Bril se esforça para lançar luz nas (muitas vezes esquecidas) fontes culturais e sociais da psicanálise, o nosso objetivo com a nossa Antropologia do Sobre-eu é completamente diferente. Não partimos da psicanálise para analisar a sociedade e a cultura. Partimos sim da antropologia e da sociologia para analisar a psicanálise teórica e institucional. E, complementando esta advertência, embora haja pelo menos uma vez a ocorrência da expressão “pulsão do supereu” no mundo da ciência, na página 31-32 do livro de Jacques-Alain Miller intitulado Biología lacaniana y acontecimento del cuerpo, de 2002, a nossa pulsão do sobre-eu se destaca por postular sistematicamente – ao contrário de Miller que apenas menciona a expressão “pulsão do supereu” sem sistematização – que a pulsão: a) tem por “fonte” o sobre-eu; e b) tem por “efeito” a dominação simbólica. Essa idéia de Miller é recuperada por Ana Maria Rudge no artigo Pulsão de morte como efeito de supereu, publicado no Agora: Estudos em Teoria Psicanalítica (jan./jun. de 2006), ligando a pulsão de morte ao supereu (como instância posterior ao isso e ao eu) – entende-se aqui que somente a pulsão de morte é uma pulsão do supereu e que a morte é quase uma mística natural da cultura. Para nós, ao contrário, ela é uma pulsão de dominação simbólica que advém performativamente da coação à repetição do sobre-eu, no sentido de formar um eu imaginário que desconhece a imposição de dominação graças à naturalização da ideologia, segredando esse processo domideológico ao isso, o espaço inconsciente. O sobre-eu é a “primeira instância” e as outras duas, o eu e o isso, lhe são paradoxalmente concomitantes. A pulsão emerge do sobre-eu para ser de dominação simbólica (de morte, de vida, de amor, de ódio, etc.).
Analba Brazão Teixeira – Antropóloga e Secretária Executiva da AMB
Semana passada o Brasil acompanhou de perto o seqüestro que culminou com a morte de Eloá. Uma Adolescente de apenas 15 anos de idade, que morreu por que decidiu não reatar o namoro com Lindemberg.
A tragédia anunciada se transformou numa briga pela audiência da imprensa televisiva e escrita, em que em nenhum momento, ao longo da sensacionalista cobertura do “caso Eloá”, a imprensa classificou como mais um caso de Violência contra as Mulheres, que estava preste a entrar na contagem dos homicídios sofridos por mulheres que resolvem não reatar os namoros, casamentos. Será que não se reconheceu como violência contra as mulheres, pelo fato dela só ter 15 anos?
Lindenberg passou a ser o centro de atenção de todos e de todas e mais uma vez uma atitude extrema de machismo é levada para o plano da patologia. O ciúme, a posse e a honra ganham o nome de “amor” de decepção amorosa, em que Eloá de Vítima passa a ser quase tratada como algoz, na boca de análises de psicólogas colocadas no ar “Se ela tivesse aceitado dialogar, nada disso teria acontecido”.
Pelo contrário, o algoz de Eloá e Naiara, a todo instante era enaltecido: Qual o perfil de Linderberg? Bom rapaz, trabalhador, amigo de todos, “era apenas um pouco ciumento”. E se chegou a este extremo é porque possui alguma patologia, dizia outro psiquiatra. Como reconhecemos as características desta patologia que uma pessoa carrega para cometer um crime como esse? Pergunta feita por apresentadores de programas televisivas.
Patologia? Ou ele não agüentou “perder” o controle que queria ter da vida de Eloá? Ou sentiu a sua “honra maculada” porque Eloá não queria continuar o namoro que ele próprio terminara?
O que acompanhamos foi estarrecedor e nos mostrou como ainda é tratada no Brasil a violência contra as mulheres. O que nós feministas chamamos de “posse” arraigada na cultura machista, a imprensa chama de decepção amorosa. O que se reconheceu foi “a legítima dor de amor dele por Eloá”, numa tentativa forçada de transformar um seqüestro em novela, de proteger um criminoso que atentava contra a vida de uma mulher indefesa, de romantizar um crime. Resguardado por sua dor, Lindembergue foi capaz de torturá-la por horas a fio, de adiar um desfecho previsto e planejado para exaltar-se diante de seu sofrimento, contínuo, prolongado e, graças às tecnologias da comunicação, teve público. Sim, a agonia da menina de 15 anos foi transmitida ao vivo, entrecortada por flashes e entrevistas pungentes de programas de auditório sensacionalistas. Os mesmos que enaltecem a carreira ascendente de ex-participantes de reality shows e celebridades com alcunha de fruta ou legume. Linderberg era a estrela do momento, dono total da situação em que duas vidas (Eloá e Naiara) corriam um risco real. E Linderberg perguntava: Qual é o canal de televisão que está me entrevistando? Este é realmente o papel da mídia, aconselhar o seqüestrador? Será que se Eloá fosse de uma família de Posses, o tratamento sensacionalista de que a vida dela estava em risco teria sido o mesmo? Questões para refletirmos diariamente. A mesma mídia, agora, faz outro tipo de sensacionalismo com a doação de órgãos, tentando transformar Eloá em Santa. Assim, desconsideram mais uma vez o absurdo de sua morte. E desconsideram que nós, mulheres, não queremos ser santas. Nós, mulheres, queremos viver. E viver com autonomia, com liberdade.
Acompanhamos, ao longo de toda a trama televisionada, a uma sutil (e branda) retomada do velho e gasto argumento da ‘violenta emoção’. Tão em voga nos anos 70. O mesmo que levou Doca Street a atirar no rosto de Angela Diniz. Sim, as dores de“amor” matam ou, melhor dizendo, a dor da rejeição da perda da posse mata. E já o fizeram, por muito tempo, impunemente. Não foi à toa que o slogan ‘Quem ama não mata’ ganhou cartazes e ruas há mais de duas décadas e continua tão presente nos nossos dias.
Tiro no rosto, tiro na virilha, o que isso significa? Por que quase sempre essas são as partes do corpo escolhidos nos casos de homicídios nas relações afetivo-conjugais? Podemos pensar que, no caso da rejeição e da perda do ser amado, os homens impulsionados pelas marcas de uma cultura sexista e patriarcal tem que aniquilar as possibilidades de realizar o prazer e o desejo do outro.
Não podemos deixar de assinalar também o papel desastroso da polícia, que teve um empenho total na garantia da vida do assassino. A polícia se condescendeu com o algoz e entregou à ele a vida das duas meninas. A todo tempo, o comandante da operação manifestava preocupação em que Lindenbeg não estragasse sua vida, em detrimento das duas vidas das mulheres. Afinal de contas, o bom moço não tinha antecedentes, era uma ótima pessoa e estava apenas sofrendo de uma decepção amorosa. Qual era a negociação de Linderbergue? A vida de Eloá.
Não é por acaso que o Brasil possui uma Lei que pune crimes de violência doméstica, que, aliás, traz o nome de uma mulher vítima desta mesma sorte de ‘amor’, sendo alvo de duas tentativas de assassinato cometidas pelo então marido. Uma história tristemente comum, que, talvez, se distinga apenas porque Maria da Penha, sim, conseguiu sobreviver.
Mas, muitas não tiveram e não tem a mesma sorte. Eloás, Vandas, Angelas, Rosângelas, Mirians, Reginas, Robertas, Marias. Morreram e morrem indefesas, dentro de suas próprias casas, agredidas, surradas e humilhadas por aqueles que, sob o pretexto do amor, disciplinam aqueles corpos sobre os quais acreditam ter direitos.
Isto acontece porque vivemos numa sociedade que ainda concebe que, se um homem alega amar uma mulher, ou se tiveram ou tem algum acerto de conjugalidade, isto lhe dá direitos sobre a vida dela.
Em nome de uma suposta ‘honra’ masculina, que, quando ameaçada, insurge ensandecida, a ponto de humilhar, ferir e matar aquela que decidiu romper e não reatar a relação.
Quem torceu pelo amor de Lindenberg, quem acreditou que ele pudesse sair daquele prédio de mãos dadas com a ex-namorada, esqueceu ou reforçou o tipo de cultura em que vivemos.
Quem tratou aquele drama passional como se não tivéssemos, neste país, de forma gritante, e em todo planeta, uma numerosa estatística de crimes de honra, ajudou a puxar o gatilho. Que conclusão podemos chegar? O Machismo Mata.
O ROBÔ QUE AMA: OS CIRCUITOS INTERNOS DA DOMIDEOLOGIA
Augusto César Francisco
Um robô que ama ao ser abraçado, criado por David McGoran da Universidade do Oeste da Inglaterra, foi à mostra no Museu de Ciência de Londres na semana passada e noticiado pela BBC News no dia 29 de julho na mídia The robot that loves to be hugged. A criatura foi nomeada de Heart Robot, que em inglês quer dizer Robô Coração, por ter um coração que palpita quando seus sensores identificam movimentos em sua “cabeça” e em seu “corpo”, toques em suas “mãos” e sons em seus “ouvidos”, todos programados para responder ao estímulo humano. O robô representaria uma nova era para as “máquinas emocionais” e poderia ser usado para o tratamento médico e para o divertimento, sendo um exemplo de como os robôs adotarão “características humanas”. Segundo David, “isso levanta questões sociais e éticas interessantes” e “se podermos colocar essa interface natural dentro do robô, seria mais fácil então de nos relacionarmos [com os robôs]”.
David alimenta um imaginário cientificista da ficção que é um autômato mecânico apresentar, por meio de um milagre científico, supostas características humanas como o exemplificativo amor (ou ódio, angústia, desejo, inveja…) do robô. A literatura do século XIX introduziu as figuras do Homem de Areia (do escritor alemão Hoffmann) e do Pinóquio (do escritor italiano Collodi) para, em seguida e também em outros meios culturais, difundir a idéia de que seria possível o ser humano criar um produto artificial que se lhe assemelhasse fisicamente e/ou emocionalmente (embora essa idéia seja bem mais antiga). Foi nesse sentido que surgiram recentemente no cinema os filmes “2001: a Space Odyssey” (de 1968, do cineasta Stanley Kubrick), com o computador inteligente chamado HAL 9000, e principalmente “Artificial Intelligence” (de 2001, do cineasta Steven Spielberg), com a figura enigmática e amorosa de David (o personagem do filme), que é uma versão contemporânea do Pinóquio.
A questão ética e social que deve ser levantada nada tem a ver com robôs e muito menos com o lugar-comum que a aplicação simplista do conceito psicanalítico de “narcisismo” faz, do velho discurso de que no narcisismo se cria algo semelhante a si mesmo para poder amar. O que deve ser questionado nos discursos cientificistas que imputam o “amor” às máquinas é a nossa necessidade repetitiva dessa imputação cultural que o presume como natural no ser humano, como se todos conhecessem coletivamente o amor, e de antemão, em razão de ser um dado determinante da biologia. Como coloca o professor Alípio de Sousa no artigo “Por uma teoria construcionista crítica” publicado na revista Bagoas: estudos gays, página 41, “Se fosse verdadeira uma natureza comum (biológica) dos ‘sentimentos’ e ‘comportamentos’ humanos, não seriam tão diversas as maneiras de ‘sentir’ e ‘agir’ culturais. Um único exemplo é, por agora, talvez suficiente: entre os Na, etnia habitante da China sudoeste, o ‘sentimento do amor’ que ‘une casais’, que temos como natural na nossa cultura, não existe”. Trata-se da leitura que o professor Alípio faz de “Une société sans père ni mari: les Na de Chine” (Uma sociedade sem pai nem marido: os Na da China) da autoria de Cai Hua. Há um outro exemplo, que são os Mundugumor estudados por Margaret Mead na Nova Guiné, descritos na página 189 e 193 de “Sexo e temperamento”: “O menino Mundugumor nasce num mundo hostil, mundo onde a maioria dos membros de seu próprio sexo serão seus inimigos, onde seu melhor instrumento para o êxito deve ser a capacidade para a violência, para ver e vingar insultos, para julgar muito ligeiramente sua própria segurança e ainda mais ligeiramente a vida dos outros” e “É dentro de um mundo tão tenso, um mundo constantemente predisposto à hostilidade e ao conflito, que nasce a criança Mundugumor (…) começa o preparo da criança para uma vida sem amor”. E um último exemplo choca os mais desavisados: trata-se do livro de Elisabeth Badinter, “Um amor conquistado: o mito do amor materno”, que relata um século na França (o XVII) em que não havia amor porque as mães deixavam seus filhos para morrerem aos cuidados de amas-de-leite.
O amor que o robô vive não deixa de ser uma materialização simbólica sobrevinda da repetição da necessidade cultural que lhe atribuímos. O software que movimenta os dispositivos eletromecânicos e biomecânicos não é nada além da nossa linguagem particular, culturalmente construída e irrefletidamente tida como natural (biologicamente, e agora ciberneticamente). As sociedades atribuirão a essa invenção os seus discursos de modo que a domideologia possa se estender ainda no amor, mas aqui talvez com uma psudodescentralização do humano que significa: o robô que tem cultura. No entanto, os dispositivos antes de serem robóticos são humanos em suas mais variadas particularidades culturais.
"Por definição, vida intelectual e recusa a assumir idéias não combinam. Esse, aliás, é um traço distintivo entre os verdadeiros intelectuais e aqueles letrados que não precisam, não podem ou não querem mostrar, à luz do dia, o que pensam"
Milton Santos
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Bem-vind@ à Crítica da Domideologia. É um blog com o objetivo de postar semanalmente textos críticos da cultura oriundos de outros blogs, de referências que se pretendem públicas e de nossas reflexões atuais. Somos Laurisa Alves, Relações Públicas (UNESP); e Augusto Francisco, Sociólogo (UFRN); críticos dos discursos domideológicos da cultura. Obrigad@ pela visita.
O que é domideologia?
A domideologia é a dominação e a ideologia no processo de impor e naturalizar a cultura. Não há dominação sem ideologia assim como não há ideologia sem dominação, mas uma não é a outra. A dominação precisa da ideologia para impor a cultura e a ideologia precisa da dominação para naturalizar a cultura. Assim, domi(nação)+(i)deologia (domideologia) é a necessidade de repetir da cultura. A única autonomia do sujeito atual é criticar repetidamente essa necessidade para que o repetir não aconteça mais necessariamente.
O entendimento da "domideologia" está principalmente no artigo Por uma teoria construcionista crítica no número de lançamento da Revista Bagoas - estudos gays e no livro Medos, mitos e castigos (Cortez), ambos do prof. Alípio de Sousa, no livro Bodies that matter (Routledge), da profa. Judith Butler, e sintetizado no nosso livro O amor em mal-estar (Booklink). Outras referências são: Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Eric Santner, Kaja Silverman e Sigmund Freud. O artigo Por uma teoria construcionista crítica encontra-se abaixo, em REVISTAS CIENTÍFICAS (Bagoas - revista de estudos gays: gêneros e sexualidades).
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